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Visões do Futuro

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O futuro da educação II: a guerra contra o bullying

Álvaro Machado Dias

10/09/2019 04h00

Crédito: Getty Images/iStockphoto

O bullying prospera no ambiente escolar conforme este falha na criação de oportunidades de diferenciação grupal, tornando particularmente vantajoso aos mais fortes ou influentes exercerem dominância agressiva por meio do exemplo, o que então ocorre às custas da vítima. Nestas circunstâncias, pessoas agem como alguns outros primatas, aves ou peixes, com consequências nocivas de longo prazo para os envolvidos e a sociedade como um todo.

Onze horas, quarenta minutos. O menino abre sua mochila: está lá. Sua respiração é ofegante, as mãos trêmulas. Decide checar se está tudo certo mesmo, a pistola dispara. O barulho assusta os que se preparam para ao início da aula de Gramática. Oitava série, matéria considerada difícil; seria uma bombinha, estrategicamente plantada para abalar a moral do professor, ou talvez balões estourando, provando a tese de que os experimentos sempre falham, horas antes de começar a Feira de Ciências?

Sentindo seu plano escorrer entre os dedos, ele não hesita. Pistola em punho, anuncia "vou matar todo mundo". Mas não, seu objetivo não é matar todo mundo. Seu objetivo tem identidade definida, chama-se João Pedro e está sentado na fileira ao lado, duas carteiras à frente, onde toma o primeiro tiro, no rosto. E um segundo, já caído no chão. Assim se inicia uma das mais brutais chacinas juvenis da nossa história recente, em 20 de outubro de 2017, a qual só não foi maior porque, após socorrer umas das feridas, a coordenadora da escola onde tudo ocorreu, Simone Elteto, colocou-se entre o menino e os alunos e ali ficou até convencê-lo a parar o massacre e entregar sua arma. Neste mundo há heroínas. E Heroínas.

Diz-se que o atirador, em sua transição à adolescência, tinha problemas psicológicos e lia livros satanistas – ou seja, não era particularmente diferente de tantos outros. Havia também a inspiração em massacres anteriores, como o de Columbine, ainda que neste último os atiradores, Eric e Dylan, tenham se matado, o que não ocorreu aqui. Em paralelo, a polícia militar apurou que o menino "sofria bullying", que era "chamado de fedido" por colegas e que um dos mortos chegou a levar um desodorante para a escola, como forma de zombar dele.

Bullying é um tipo de comportamento agressivo, verbal ou físico, sistematicamente dirigido a uma pessoa, no nosso contexto, outro aluno. Trata-se de algo distinto da explosão de agressividade, incontrolável e assistemática. O bullying é social; joga-se para a plateia, que dá seu apoio ao observar e não intervir.

É difícil precisar seu papel nesta história e é importante ter em mente que a alusão ao mesmo dá uma lógica aos acontecimento, que pode não refletir a realidade. Assumindo que seja o caso, dá para imaginar o menino mentalmente torturado pela zombaria, pensando em como reagir. Neste ponto, é admirável que não tenha simplesmente mudado seus hábitos e passado a usar desodorante. Por que, afinal, não se adequar à maioria, sendo tão alto o custo de não o fazer?

Uma hipótese parte do fato de que psicopatas, pessoas capazes de cometer atos como este, têm maior chance de apresentarem disfunções do córtex orbitofrontal – também chamado de entorrinal por seu envolvimento na olfação – e por isso não conseguem discriminar cheiros muito bem.

O menino poderia sofrer desta condição de base, agravada por um falta de referência olfativa adequada, dado que o odor corporal em questão era-lhe estranho até quase então, posto seu surgimento com a adolescência. Pode não ter adotado a saída fácil por julgar que a zombaria não teria qualquer suporte real, não podendo ser combatida nesta esfera.

Outra hipótese é que tivesse razão sobre este ponto e que o mal-estar criado não tivesse mesmo a ver com o fenômeno que ocorre quando moléculas voláteis, como o ácido valérico (também envolvido no chulé), adentram cavidades nasais, ligando-se a proteínas G para o envio de impulsos ao cérebro. São estes casos os responsáveis por tornar o bullying um dos problemas escolares mais complexos existentes, criando tensões que por vezes culminam em desfechos explosivos.

Papéis assumidos no bullying e seus efeitos em nossa estrutura social

Talvez Sartre tenha razão ao dizer que "o ser-humano é uma paixão sem sentido. É sem sentido vivermos e sem sentido é morrermos". De fato, do ponto de vista evolucionário, não há sentido na vida para além de sua própria perpetuação, por meio dos genes, cuja transmissão é o primeiro passo até a nossa completa obsolescência, a qual acontece quando nossos netos crescem.

Porém a gente se beneficia em tratar o sentido da vida como algo tangível e essencial, tanto individualmente, quanto em grupo. Isso envolve a definição de planos de desenvolvimento e realização para as diferentes fases da vida – coisa que não se discute muito por estas bandas, dadas as dificuldades da maioria para chegar ao próximo ano. É olhando por este tipo de ponto de vista que discordo de quem diz que a felicidade é patrimônio nacional. Doce ilusão, que as estatísticas desmentem.

Glen Elder fala da vida como uma sequência de papéis a serem executados para o atingimento de platôs crescentemente mais elevados em níveis afetivo, intelectual e técnico, dando contornos progressivos ao desenvolvimento pessoal e, se nada atrapalhar demais, ao desenvolvimento humano ao longo de diversas gerações.

Há críticas diversas a esta visão, ingênua em seu esquematismo. Ainda assim, a noção de que a lente da evolução em vida, e através das gerações, é positiva para aqueles que dela se apropriam passa pelo teste das inconsistências. É o que também pensa o Steve Pinker (Harvard), que por isso acredita que o mundo está evoluindo, apesar de seus constantes trancos e barrancos.

Sob esta visão, o bullying é um dos fatores capazes de dificultar a progressão entre platôs, tal como os acometimentos ao desenvolvimento fetal e outros fatores.

O bullying não é, portanto, mero problema pessoal, mas uma questão com potencial geracional relevante. A maneira como exerce este efeito varia em função do papel exercido pelo indivíduo. Isto porque as narrativas do bullying têm três possíveis personagens centrais e um possível coadjuvante. Entre os primeiros estão a vítima, o bully, a vítima-bully; os coadjuvantes revezam-se no papel de observadores. Tal como no teatro, é por causa deles que tudo acontece.

A vítima tende a sofrer mais de ansiedade, depressão e a querer evitar a escola, o que se torna particularmente grave à luz dos efeitos que isso causa no desenvolvimento psicossocial e chance de sucesso profissional. Neste ponto, o bullying tem uma conexão com a chatice, na problemática rejeição ao ambiente escolar.

Os efeitos sobre o bully são mais variados. Há estudos que reportam que estes também sofrem mais ansiedade e mesmo depressão e outros que dizem o oposto. Porém, todos convergem na ideia de que o bully tende a perpetrar este padrão de comportamento pela vida, o que gera consequências pessoais nefastas no longo prazo. Por fim, há aqueles que ao mesmo tempo sofrem bullying e o repassam (bully-vítima); estes tendem a sofrer mais e a terem os piores desempenhos escolares.

Na média mundial, cerca de 25% dos alunos sofrem bullying e cerca 10% são bullies/bullies-vítimas. Uma pesquisa conduzida em uma escola paranaense revelou que 50% já sofreu bullying e 20% já o cometeu. Impossível dizer, com base neste único estudo, se a taxa de bullying é particularmente elevada no Brasil. O que se pode dizer é que o país é violento e que a supramencionada conexão entre ser bully na escola e na vida adulta não pode ser desprezada. A ideia de que, em determinadas condições, uma coisa leve à outra deve ser mais bem explorada, sobretudo quando mediada pelo abandono escolar, que catalisa a delinquência.

Algumas noções para endereçar melhor o problema do bullying

Muita gente não sabe, mas existe uma lei que obriga as escolas a adotarem medidas de combate ao bullying (LDB-Lei 9.394/96). As iniciativas têm sido tímidas. Uma das razões que percebo em conversas com educadores é uma espécie de desânimo, dadas as dificuldades para se desatar os nós que estão nas origens do fenômeno.

Tal percepção não é infundada. Do ponto de vista de grande parte dos adultos, o caminho virtuoso é aquele em que cada um contribui com um pouco de esforço para a produção de resultados que ultrapassam a soma linear dos mesmos (os chamados jogos cooperativos), do que segue que demonstrações de que o bullying abole o ganha-ganha deveriam ter efeitos surpreendentes. Infelizmente, não costuma ser o caso, tal como em relação a um sem-número de políticas de conscientização juvenil.

Isto porque as pessoas não deixam de trazer consigo lógicas mais cruas de convivência, especialmente na infância e adolescência, não apenas por imaturidade, mas pela própria estrutura das relações entre pares, onde apelar para controles adultos é mal visto, podendo reforçar a alienação social, que é uma das formas mais recorrentes de bullying, produtora de grande sofrimento mental. A mesma coisa se aplica à plateia, fundamental neste ciclo vicioso: dada a toxidade de certos ambientes escolares, o jovem muitas vezes assume que a postura mais racional é aquela que minimiza a chance de se tornar vítima, o que lhe faz ter receio de defender quem o é, dado que isso poderia sinalizar identificação.

Esta lógica "mais crua" aproxima o bullying escolar àquele que se observa na vasta maioria das espécies sociais, como hienas, diferentes aves, peixes e, claro, chimpanzés. Entre estes, é comum que um macho dominante ataque sistematicamente outros, menores e mais fracos, sem qualquer motivo aparente, exceto a sinalização de seu status para o grupo. Muitas vezes, outros macacos fortes, subdominantes, assistem incólumes a estes ataques, que assim funcionam como mecanismo de apaziguamento tácito de disputas neste extrato do grupo, conforme indicam o poder de fogo do líder. Este mecanismo é tão disseminado na natureza, que até peixes são capazes de distinguir status social pela observação de conflitos assimétricos.

Para se chegar à origem do problema que existe entre nós é preciso ter em mente que, quando abandonados à sua própria sorte ou simplesmente à lógica interna do grupo, os alunos mais fortes e agressivos, especialmente se pouco dotados de outras formas de diferenciação, assumem tacitamente – sem passar por representações mentais – que lhes é vantajoso exercer bullying sobre um ou outro mais fraco pois isso tenderá a destacar seu status; no mesmo espírito, seus pares assumem que lhes é vantajoso manter a situação como está, dado que a sinalização que lhes é endereçada indiretamente poderia ser substituída por uma disputa.

O cyberbullying tem uma estrutura um pouco diferente, na medida em que não é a força física que conta e sim a influência, mas os contornos gerais são os mesmos.

Em ambos os casos, seu combate precisa passar pela subtração destas vantagens. Um dos caminhos mais claros e testados é pelo aumento da diversidade de backgrounds e perfis dos alunos. Esta tende a multiplicar o número de subgrupos, quebrando hegemonia, o que por sua vez diminui a tensão dentro da própria rede de relacionamentos onde o bullying mais ocorre.

Na minha opinião de ex-aluno que não conhece detalhes mais atuais por nunca ter atuado como professor fora da Universidade Pública, é o que o Colégio Santa Cruz faz muito bem, por meio da promoção de verticais semiautônomas, dotadas de alto potencial agregado e algum nível de competitividade, como a de artes, esportiva e a científica. De um ponto de vista esquemático, este tipo de modelo fortalece a construção de grafos (redes) independentes, com menor número de encadeamentos, que os físicos chamam de redes de pequenos mundos, além de mecanismos de passagem entre eles.

No final, o objetivo é que o jovem se encontre em algum deles, tanto em termos relacionais, quanto da realização de seu potencial, o que naturalmente mitiga seu papel de alvo e desincentiva a servir de plateia, sob a preocupação delineada acima.

Em consonância com esta visão, uma recente revisão sistemática de meta-análises, isto é, uma revisão que juntou o resultado de diferentes estudos, dedicados à sistematização dos resultados de diversos outros, mostrou que o principal fator de proteção das vítimas é o desenvolvimento autodirigido de competências.

Uma segunda iniciativa relevante é a identificação precoce dos tipos-alvo e a realização de intervenções direcionadas aos mesmos. Esta, no meu entendimento, é inovadora e propõe uma ponte saudável entre escola e saúde mental, a qual tende a se fortalecer, conforme as pesquisas avançam e a gente compreende mais sobre o neurodesenvolvimento.

A discussão suscitada sobre a condição psiquiátrica/psicológica de base do atirador mencionado não é pontual. Existe um longo debate envolvendo o ovo e a galinha do bullying, onde aquele é o comportamento e esta a condição mental de base. A visão dominante hoje em dia é a de que o ovo tende a vir antes. Ou seja, o bullying tende a produzir condições tipicamente clínicas onde antes nada existia. Porém, também é certo que existem fatores mentais de risco, que, sob estresse, levarão a formas duradouras de sofrimento mental.

Assim, é possível identificar estas condições de base e agir sobre as mesmas, de modo a tirar o jovem da rota do bullying, especialmente a partir do que se convencionou chamar de reestruturação cognitiva, que é a recriação de certas representações negativas sobre si mesmo, as quais os bullies parecem especialmente aptos em farejar. Estas condições de base podem ser identificadas com testes relativamente simples e não são necessárias muitas intervenções para que os resultados sejam notáveis, conforme testado recentemente na Austrália.

Para fechar

O bullying é um problema mais grave e persistente do que parece, o qual impacta a formação, a felicidade e a grau de violência de uma sociedade.

As medidas baseadas em conscientização e redução generalizada da violência tendem a funcionar pouco. Isso porque, quando não existe um desenho institucional estimulante, a lógica selvagem das disputas hierárquicas baseadas na força ou influência digital tendem a se impor, já que costuma ser atraente para aqueles que são mais fortes, mas carecem de meios alternativos de diferenciação.

Os dois caminhos mais eficientes para se mudar este quadro envolvem o estímulo ao nascimento de hierarquias alternativas, baseadas em competências autodirigidas, isto é, que o jovem descobre em si; e a intervenção rápida sobre os tipos-alvo. À luz da escassez de recursos, esta última poderia se beneficiar em muito destas novas estratégias de diagnóstico e atendimento psicológico virtual, que andam pipocando por aí. Mas isso é assunto para outra ocasião.

Próximo ensaio tem mais sobre o futuro da educação. Até lá.

Sobre o Autor

Álvaro Machado Dias é neurocientista cognitivo, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomadas de Decisão, editor associado da revista científica Frontiers in Neuroscience, membro da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge) e do MIT Tech Review Global Panel. Seus interesses intelectuais envolvem tomada de decisões de um ponto de vista cerebral, efeitos das novas tecnologias na compreensão do mundo, inteligência artificial, blockchain e o futuro da medicina. Contato: alvaromd@wemind.com.br

Sobre o Blog

Este blog trata de transformações de mentalidades, processos decisórios e formas de relacionamento humano, ditadas pela tecnologia. A ideia é discorrer sobre tendências que ainda não se popularizaram, mas que dão mostras de estarem neste caminho, com a intenção de revelar o que têm de mais esquisito, notável ou simplesmente interessante, de maneira acessível e contextualizada.