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A ideologia da revolução cognitiva I: os algoritmos por trás do mundo

Álvaro Machado Dias

17/12/2019 04h00

Gerd Altmann/ Pixabay

A nova revolução tecnológica – a qual proponho que chamemos de cognitiva – possui uma ideologia que ainda não está muito clara. Esta série de ensaios visa contribuir para a sua compreensão. Neste aqui, o assunto em discussão é a mentalidade que decorre da crença no poder dos algoritmos".

 

As eras das revoluções

Para o inglês médio da segunda metade do século XVIII, as transformações tecnológicas que inauguraram a modernidade produtiva talvez não representassem mais do que curiosidades técnicas alheias ao seu dia a dia. O mesmo pode ser dito daqueles que assistiram à emergência do petróleo e da eletricidade, cento e poucos anos depois. Para nós, essas pessoas viveram duas das maiores revoluções da história.

É incerto se já adentramos uma fase de transformações tecnológicas aceleradas que ficará conhecida como 4a. Revolução Industrial ou, como acredito, Revolução Cognitiva. O que me parece mais claro é que os historiadores da segunda metade deste século irão falar de uma época em que o aprendizado de máquina, secundado pela internet das coisas, biologia molecular e blockchain, impôs uma quebra de paradigma comparável às duas citadas acima e também àquela que ocorreu com a introdução da computação industrial, na década de 1970.

Há muito o que se discutir sobre o assunto. Mas, sobretudo, parece-me fundamental mapear os pilares ideológicos sobre os quais esta nova era começa a organizar nossos costumes, entre outras coisas, porque o debate tem se mostrado pouco ambicioso.

Esta série de ensaios procura ajudar neste mapeamento, com a consciência de que não passará nem perto de o esgotar.

Otimização como pilar

Bactérias navegam o ambiente utilizando as diferenças de concentração osmótica para seguir. Elas são como o barco que carrega Pi, no filme que conta a sua história, à deriva, enquanto tentam aproveitar as oportunidades que surgem para sobreviver. Falta-lhes um capitão e também um espaço de realização de seus direcionamentos, o que, no mundo biológico, é representado pelo núcleo celular.

O surgimento dos eucariontes, organismos de núcleo organizado, é concomitante ao aparecimento dos processos decisórios, os quais foram responsáveis por uma explosão na sofisticação da vida – afinal, uma mera escolha direcional pode se tornar muito complexa, em função daquilo que implica.

O que mais diferencia abelhas e moscas de bactérias é a capacidade daquelas de customizarem suas rotas aéreas e, nesta exata medida, de utilizarem o sucesso desta empreitada para se manterem no jogo da vida por mais tempo. Então, por exemplo, as paradas que uma abelha faz no caminho de volta para a sua casa melada não são meras obras do acaso, mas obedecem a princípios condizentes com a premissa de que sua função na vida é garantir o sucesso de seus descendentes.

A mesma coisa é observada nos comportamentos de enxames, formigueiros e outras formações em rede, incluindo combinações heterogêneas formadas por indivíduos de espécies distintas, que agem como se fossem uma orquestra regida por Arturo Toscanini. Ou Deus.

O cérebro humano tem uma quantidade de neurônios comparável a de estrelas na Via Látea. Estes neurônios migram para a sua posição neuro-anatômica final, em processo massivo da vida fetal, onde as chances de erro são consideráveis. Porém, mais ou menos como o formigueiro em sincronia, ou patos formando esculturas cinéticas no céu, tendem a se sair incrivelmente bem.

A estratégia adotada é compartilhada pelas diferentes partes do organismo, pois é a dos próprios genes, que ao invés de se pautarem por ideais suíços de precisão, priorizam uma mistura de acerto com tolerância latina a erros.

O que todos estes exemplos têm em comum é o fato de serem regidos por um princípio: otimização. Patos quando voam otimizam suas rotas, tal como leucócitos atacando antígenos, o camarão quase cego que cava um buraco e nele abriga um peixe ou cachorros vivendo bromances inigualáveis conosco.

Pixabay

Otimização é a tendência a aplicar uma regra para obter o melhor resultado possível, o que nestes exemplos significa estadia prolongada de um genoma no planeta.

Nos exemplos acima, essas regras são o próprio resultado da seleção natural, cujos efeitos podem ser confundidos com a ação planejada de um ente superior, justamente porque convergem a soluções que nos parecem espantosamente eficientes – a comportamentos que, dentre as possibilidades que conseguimos imaginar, parecem realizar o máximo aproveitamento dos recursos disponíveis.

A capacidade dos organismos se multiplicarem excede a capacidade do planeta, que já era uma arena competitiva antes de reduzirmos seus biomas a cinzas. Nesta arena, são lançados indivíduos dotados de variações na maneira de fazer as coisas. O simples fato de que os mais aptos são os únicos a acessar os recursos necessários para chegar à fase reprodutiva e também garantir a sobrevivência de seus descendentes faz com que a espécie siga uma tendência que nos inspira a pensar em otimização.

Isso não quer dizer que efetivamente melhore ao longo do tempo – tal é um juízo que abarca bem mais coisas do ponto de vista de quem julga e que sugere uma equivocada teleologia – mas é fato que ela segue em processo de transformação, na medida em que a sobrevivência é uma função da capacidade de interagir de maneira eficiente com o ambiente, incluindo os outros membros da espécie.

O mesmo raciocínio se aplica a boa parte do aprendizado, que é o processo de continuamente limar o capim que tende a recobrir as regras capazes de elevar a eficiência de algum comportamento, usando imitação e feedbacks. O desnudamento destas regras mais eficientes tende a gerar estabilidade comportamental e, portanto, otimização. Tudo isso nos conduz, portanto, às tais regras, ou, "algoritmos".

Ecoritmos

Algoritmo é um conjunto finito de instruções cuja aplicação permite a resolução de um problema. Este, por sua vez, é a situação em que existem possibilidades distintas de ação, com valores discrimináveis para o organismo.

Para as instruções terem efeito precisam ser processadas por um sistema apto. Computação não é mais do que isso: processamento de algoritmos por um sistema apto.

É comum dizer que estamos em uma época de proliferação de algoritmos. Isso tende a transmitir a falsa noção de que eles são tão vários em sua natureza profunda, quanto são os fenômenos aos quais se aplicam.

Ledo engano. A vasta maioria é de um único tipo, chamado simplex, e se volta à otimização de desfechos por meio da chamada programação linear (vale ler este artigo de 2012 para entender melhor os detalhes). Não é preciso saber muito sobre o assunto para viver sob seus efeitos culturais.

Em especial, há um debate em aberto sobre a possibilidade da natureza ser feita de algoritmos, onde a única ressalva inquestionável é que "algoritmos" e "sistema apto" (vide acima) não se diferenciam de maneira tão rigorosa quanto software e hardware.

Este debate inclui um braço em que se discute se o cérebro humano pode ser concebido como computador biológico, uma vez que é parte inquestionável da natureza – no caso, a parte responsável por nos trazer a cultura.

Para ficar na parte menos controversa – aquela em que colocamos todas as formas de vida no mesmo saco, com exceção de nós mesmos – a ideia é simples: se há otimização é porque há algoritmos biológicos ou "ecoritmos" como diz Leslie Valiant (Harvard). Se é assim, a diferença entre cérebros e placas de silício capazes de rodar otimizações que, em parte vêm de fábrica e em parte são fruto do aprendizado de máquina (e que fundamentalmente rodam o simplex ou algum derivado), é mera perfumaria.

Aplicado à revolução que se inicia, este raciocínio sugere que as diferenças entre as outras espécies e máquinas tendem a se reduzir à aparência e disponibilidade de peças de reposição.

Não seria exagero dizer que, nos meios científicos, tal é dominante a ponto de ser tratado como verdade. Apenas para citar um exemplo, eu mesmo assino embaixo.

Em geral, representações mentais fortemente ideologizadas partem de ideias amplamente aceitas para endossar derivados um tanto mais discutíveis. Neste caso, a ideologia em jogo é da conversão da premissa latente de que a mente, a natureza ou a realidade têm aspectos algorítmicos na ideia de que tudo pode – e mesmo deve – ser otimizado, na vida de cada um. É o mundo do simplex.

Não se iluda assumindo que se trata de delírio de executivo estressado. Pelo contrário, trata-se de uma forma de pensar que vem se tornando ubíqua, justamente porque tem um lado sensato.

Tomemos como exemplo a singela representação do jovem que rechaça os valores dos executivos estressados pois o que lhe importa é ser feliz, aqui e agora. É fácil perceber que para poder dar lidar com esta noção será necessária a existência de múltiplos estados subjetivos, um limiar dinâmico capaz de separar estes estados, eventos ou "variáveis", e, acima de tudo, da capacidade de direcionar as coisas em prol desta aspiração.

 

Gino Crescoli/ Pixabay

Em outras palavras, (1) aquilo que esta pessoa faz impacta a maneira como se sente; (2) este impacto faz com que procure ajustar comportamentos continuamente; (3) tais ajustes só são possíveis porque se baseiam em regras, que nada mais são do que algoritmos voltados à otimização comportamental.

É incrível: como num piscar de olhos, passamos da representação do sujeito que rechaça valores como dinheiro ou sucesso em prol da felicidade aqui e agora para a ideia de algoritmos biológicos otimizando desfechos.

O que é importante notar é que a porca não torce o rabo pelo raciocínio em si, mas pela intensidade com que o ponto (2) é endossado ou, mais precisamente, apresentado sem qualquer relativização. Conforme acreditamos mais na representação da vida como processo de superação continuada, felicidade como reflexo de ajuste em condutas em função de feedbacks e assim por diante, mais tendemos a endossar o ethos desta nova era, em que o aprendizado de máquina não é simplesmente visto como um derivado do comportamento biológico, mas também – e fundamentalmente – o oposto.

A programação linear inspira nossa maneira de pensar a própria vida

A ideologia fundamental sobre a qual lanço luz neste ensaio é tão sutil quanto decisiva ao momento da cultura hegemônica hoje em dia (WEIRD): ela é dada pela supressão das ressalvas que recomendam a relativização da ideia de que somos otimizadores algorítmicos em prol da sua adoção literal e plena.

Na prática, não pode ser assim pois, apenas para ficar neste exemplo, a felicidade pode ser tolhida pela aplicação de regras que traduzem sua perseguição continuada.

Meu palpite carente de evidências é que nunca na história acreditou-se tanto na ideia de que a vida pode ser otimizada. Isto vem levando à proliferação de receitas comportamentais. É a sociedade da dica, que naturalmente só tem sentido porque tudo, supostamente, tem uma fórmula.

Por exemplo, imagina que você tenha algum dinheiro para investir na bolsa e queira montar um portfólio de ações. É bem provável que busque incorporar algumas com maior risco e chance de retorno a outras mais seguras, sob a ideia de que seu objetivo (aquilo que quer otimizar) é uma combinação de retorno e segurança ou, para ser mais preciso, o maior retorno possível até o limite em que a chance de perder x% seja y.

Não há dúvidas de que algoritmos podem ajudar a compor este portfólio, bem como determinar a combinação ideal de álcool e gasolina que um carro flex deve usar a cada momento para otimizar o investimento em combustível e tantas outras coisas. Todo mundo entende isso. Aliás, o mundo está de queixo caído pois a inteligência artificial está avançando rapidamente na resolução de problemas que apenas de longe lembram estes daí, tamanha é a quantidade de variáveis (dimensões e restrições).

Gerd Altmann/ Pixabay

Pela aplicação desta mesma ideia, segue que, dado um conjunto de ingredientes disponível em casa, haverá sempre um prato ideal para ti – ainda que este varie em função do momento. Ou seja, a combinação de ingredientes do lanchinho da madrugada pode ser otimizada, tal como se cebola, picles e alface fossem Petrobrás, Vivo e Oi (eis uma nota de ironia).

Com mais um passo, o princípio chega ao plano das relações interpessoais, que supostamente podem ser otimizadas da mesma forma. É isto o que explica o sucesso estrondoso dos aplicativos de relacionamento, a disseminação da prática de garimpar obsessivamente dicas de pensamento ou estilo e o culto às personalidades sem expressão subjetiva, nas redes sociais.

Um dia iremos olhar para trás e achar isso tudo tão estranho quanto hoje nos parece natural.

Para fechar

Em 1901, Freud publicou "A Interpretação dos Sonhos", livro revolucionário, em nível transdisciplinar e mundial. Em meio à descrição de princípios de validade atemporal, como são deslocamento e condensação, apresentou seu modelo do aparelho psíquico. Tratava-se de um prosaico microscópio, com suas várias lentes fazendo o papel de camadas da mente, através das quais relações marcadas por suas conotações afetivas seriam "operacionalizadas".

Passados cento e vinte anos, é evidente para qualquer pós-adolescente bem instruído que existem opções melhores do que esta que Freud escolheu. Entre elas, é provável que a vasta maioria aposte no computador digital para fazer o papel do microscópio e em rotinas de otimização para fazer o papel do que ocorre ali. A lição que fica é a do grão de sal.

Sem incorporá-lo – sem fazer a crítica antecipada da otimização – torna-se natural absorver tudo o que a inteligência artificial pode nos trazer para atingir nossos objetivos, de maneira mais rápida e consistente. Isso é uma arapuca.

Em primeiro lugar, objetivos muitas vezes são meros apoios para as jornadas que nos separam deles. Ao entrar na casa pela janela, boa parte da razão para visitá-la se esvai. Em segundo lugar, isso tende a nos enfraquecer onde mais nos orgulhamos de sermos fortes: no domínio da cognição. Uma vez que a máquina resolve aquilo que nos parece difícil, substituímos a busca de soluções pela de algoritmos capazes de as encontrar.

Acontece que a natureza destas buscas é radicalmente distinta: enquanto a primeira evoca a vivência dolorosa das aventuras de Pi, a outra se assemelha à escolha que fazemos quando nos surge o convite à aventura, no menu da Netflix.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Álvaro Machado Dias é neurocientista cognitivo, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomadas de Decisão, editor associado da revista científica Frontiers in Neuroscience, membro da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge) e do MIT Tech Review Global Panel. Seus interesses intelectuais envolvem tomada de decisões de um ponto de vista cerebral, efeitos das novas tecnologias na compreensão do mundo, inteligência artificial, blockchain e o futuro da medicina. Contato: alvaromd@wemind.com.br

Sobre o Blog

Este blog trata de transformações de mentalidades, processos decisórios e formas de relacionamento humano, ditadas pela tecnologia. A ideia é discorrer sobre tendências que ainda não se popularizaram, mas que dão mostras de estarem neste caminho, com a intenção de revelar o que têm de mais esquisito, notável ou simplesmente interessante, de maneira acessível e contextualizada.

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