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Crônicas de uma era: a feira da Lorena

Álvaro Machado Dias

03/03/2020 04h00

Mohamed Hassan/ Pixabay

"Crônicas de uma era" é uma série de crônicas e contos inspirados nas transformações psicossociais trazidas pela digitalização massiva, economia compartilhada e inteligência artificial. As histórias são ficcionais e, como é de praxe nesta coluna, desenvolvem-se em séries estruturadas tematicamente. A primeira delas se chama "A feira da Lorena" e apresenta dois contos, em dois atos.

A feira da Lorena

A feira da Lorena é famosa por sua clientela farta e imodesta, que circula de domingo comendo pastéis bem avaliados pela revista hypeness. Nem sempre foi assim. Num tempo em que hambúrguer do futuro lembrava carne amanhecida e frutas, folhas e legumes estavam na cesta de amolador de faca e tampa de panela, quase quebrou.

Mas eis que os supermercados da região foram melhorando, melhorando, até tornar a feira pouco atraente para quem precisa exercitar a geladeira. E o sucesso foi absoluto. Hoje ela já é o principal evento social do quarteirão, que também a vê como uma espécie de vingança contra as clínicas de estética que ali se instalaram.

A história que vou contar teve início há mais ou menos um ano, quando o Luiz Otávio perdeu o emprego na agência de viagens e casa de câmbio digital do Senhor Lee, que conduzia este segundo negócio a partir de um PC antigo, constantemente pedindo a atualização do Windows.

Aquele não era mesmo emprego para durar – não por causa do menino, tolerante a gambiarras e sempre muito dedicado – mas pela ideia mesmo de usar algoritmos para prever se o dólar vai subir ou descer durante o dia, quando todos sabem que isso é determinado pelos deuses, que propagam a notícia usando aquela famigerada regra dos seis graus de separação, a partir dos camaradas que redigem a ata do Copom.

Observar a rua da linha do escanteio não é fácil. As mais tenebrosas ideias vêm à mente, incluindo ser sócio da própria mãe, Terceiro Dan em desemprego qualificado.

Dona Ruth mora com o filho num apartamento que veio com o finado Carlos Otávio e que ela tenta vender há uns bons dez anos, por valores à altura do seu apego.

Ela conheceu o tarô logo após o destino lhe mostrar que sua sorte não estava na enfermagem ou qualquer outra atividade sistemática e excessivamente laboriosa.

Talvez você não saiba, mas existe uma espécie de sociedade secreta das práticas do oculto, em Osasco. São senhoras alijadas da previdência, que se encontram a cada duas semanas para falar sobre os caminhos do mundo e os interesses da sua ocupação, à sombra do prédio onde Amador Aguiar, do Bradesco, estabeleceu tradição análoga.

Ali se lamenta o fato do tarô verdadeiro, que pode ser francês, espanhol, português ou brasileiro ter perdido espaço para a adivinhação pura e simples e esta para formas superiores de doutrinação do imaginário. É lá que Dona Ruth arrumou seus últimos clientes – os únicos de segunda mão deste mercado – herdados da Mara e da Anelise, cujos destinos passaram a dispensar leituras, mais ou menos na mesma época.

De resto, é lá também que faz uma graninha extra dando formação em tarô, astrologia, búzios, leitura dos chacras, reiki e diversas outras técnicas, que em contexto desconhecido veio a dominar. Luz, água, condomínio vêm daí, enquanto o Júnior faz o supermercado e chama umas pizzas, quando a namorada vem passar o final de semana na cidade.

Nada disso escapou ao clarão revelador, quando o menino cogitou se associar à mãe. A questão é que tinha um plano – um plano para empreender.

– Mãe, o negócio é o seguinte, nós estamos em frente à uma feira de elite e não aproveitamos nada disso. Nem banana a gente compra aqui. Pensei que a gente poderia ter um website e criar umas cestas especiais, tipo nutricionista, com as coisas da feira. Aí a gente monta uns pacotinhos em casa mesmo e divulga na vizinhança. Hein? Que tal? A gente pode por numas embalagens bonitas, divididas pelos dia da semana, com tabela nutricional, gelinho de alfafa pro suco e tudo mais. Eu fiz uns cálculos aqui e, se a gente negociar com os feirantes, vamos tirar uma grana. E eu duvido que surja um concorrente – isso eu duvido mesmo.

Assim foi. E assim nasceu esse híbrido de iFood e Rappi, do quadrilátero. Dois meses depois estava claro que não iria muito longe. A demanda refletia a divulgação, que era pífia; os feirantes não queriam dar desconto se não fosse numa quantidade impraticável. E a margem para fazer as tais cestas era mínima.

Cientes da situação, os bancos de currículos da cidade inteira passaram a exibir cópias da ficha do Otávio, incluindo a atualização "empreendedor digital" e o link para o site que ele criou no WordPress e que expressa bem seu desprezo pelo design: afeiradalorena.com.br.

Pois foi na fila de uma entrevista que ele recebeu um zap da Dona Ruth: Jú, tô indo entregar a cesta dum tal Marlon Almeida, que mandou um monte de instrução. Esse não é um empresário de tecnologia famoso? Posso tentar te indicar?

– Pera mãe, vamos ver direito.

– Ok.

– Olha mãe, vi aqui, é um cara de Brasília; tem vários e-commerces e entrou na sociedade de uma empresa grande de tratamento de dados chamada Vox, parece que pagou um dinheirão. Manda sim. Mas tenta criar um clima – e, de uma vez por todas, pare de falar que a gente entrega salada; isso só queima o filme. Fala que a gente tem uma startup. Ah, diz pra ele que seu filho trabalhava com dólar usando aprendizado de máquina. Quem sabe chama a atenção.

Fazia tempo que Dona Ruth não entrava em casa fazendo barulhinho de esquilo. Sentou no sofá igual o Tico e o Teco e olhou o filho com cara de "me pede uma explicação":

– Jú, tem ainda daquela cerveja coreana que você trouxe de lá?

– Tem mãe, pior cerveja do mundo, mãe.

Três goles e nada.

– Conta mãe, para de ser tonta.

– Jú, você não tá entendendo. Hoje eu tive uma epifania. Eu vi, assim, na minha frente, tava tudo lá. Sabe como quando eu soube que seu pai tava ferrando a gente, olhando o desenho do frango assado na bandeja? Lembra disso? Hoje foi igual, filho. Eu sabia, eu sabia!

– O que mãe? Conta logo, pô.

– Não tem logo, não tem quando. O tempo não existe, Otávio. Não tem nem antes nem depois. Eu simplesmente vi a verdade nas cartas. A verdade lavada, deslavada, bandeirada, soprando na cara do mundo. Meu filho, vamos ficar milionários.

– Como assim, mãe, que papo doido é esse? O que foi, você pegou o cara?

– Ai, quem me dera, um peixão apessoado desses, Glória, ó Pai. Mas não.  Jú, na hora de entregar a cesta não conseguia encontrar motivo para passar o seu currículo, então resolvi ganhar tempo explicando como os legumes influenciam a energia. Aquela coisa que o baralho pede. Aí ele me convidou para entrar. A gente sentou na cozinha e conversou quase uma hora sobre essa coisa toda de comida e energia, abóbora japonesa e sonho, alface e impotência, o básico.

– Alface dá impotência?

– Pera, Jú, não atropela. Do nada, falei que sabia ler a sorte e como estava sem baralho, que lia na flor de brócolis.

– Brócolis, mãe? Você pirou?

– Tem, Jú. Tem isso sim, meu filho. É como a técnica das flores japonesas. O cliente escolhe um ramo do brócolis e eu leio ali mesmo.

– Mãe…

– Pois foi que ele escolheu um ramo com uns amarelos e eu vi, juro que vi que o cara tinha finalmente achado o ouro que tanto procurou.

– Certo.

– E foi aí que eu vi que também tinha achado o nosso ouro – cara de fechadura multilock.

– Fala logo, mãe, caramba, você tá ligada que eu odeio novela.

– Foi assim, olhei bem nos olhos dele e disse "você veio de muito longe, de uma terra árida, mas central, esquecida, mas cheia de palácio, onde o sol de tão quente deixa as plantas retorcidas e as estrelas brilham como em nenhum outro lugar. Você veio com a missão de Marco Polo, unir os povos pelo comércio. Mas lhe faltava uma grande aposta. Neste ano, você finalmente vai vencer".

– Mãe! Você falou pro cara aquilo que eu vi no Google!

Silêncio.

– Tá bom, mãe, valeu pela breja. Amanhã a gente se fala.

– Jú, olha aqui filho, olha aqui nos olhos da sua mãe.

– Quê? Para de cena, mãe.

– Filho, sério. Olha pra sua mãe e diz: quantas vezes? Quantas vezes a sua mãe deu mole numa dessas?

– Dessas quais, mãe? Do que a senhora tá falando?

– Otávio de Oliveira Júnior, são premonições, meu filho. São as premonições que estão no nosso destino. Tá entendendo? No nosso destino.

– Mas de que diacho você está falando?

– Jú, você não enxerga o sinal? O problema não está nas cartas, mas nessas coisas bestas que o povo usa para ver se o trabalho é sério. É só isso o que falta. Você cuida dessa parte, que eu me encarrego de atender vinte, trinta clientes por dia. O céu é o limite, Jú, o céu é o limite!

– Jesus, Mãe. Vou dormir que tenho uma entrevista cedo, tudo bem?

Manhã seguinte não teve entrevista, não teve café da manhã, não teve sequer saidinha do xixi. O menino estava deprimido de verdade.

– Otávio, vem almoçar.

– Não quero.

– Filho, tô fazendo a merluza daquele maldito que cancelou. Só falta eu ter que olhar sozinha para esse peixe que não me pertence. Vamos.

– Que é que você está me olhando com essa cara, mãe?

– Filho, sua mãe é velha, não entende dessas coisas aí que você faz, mas esse negócio do Google é muito poderoso…

– Eu sei mãe, mas não é assim como você pensa. Todo mundo sabe que dá para olhar o nome das pessoas na internet, dar uma sacada no Face. Como é que você acha que o recrutador escolhe candidato, você acha que é só no olho a olho? Não é não.

– Ah, filho, mamãe entende, mas, será que não tem um jeito; será que não tem como…

Um silêncio diferente invadia a cozinha, enquanto o Otávio estacionava seus olhos na vaga entre o alface e o peixe, para poder levar seu cérebro passear. Dona Ruth sabia o que estava acontecendo e fazia verdadeira força para não atrapalhar.

– Tem! Tem, mãe! Tem!!!

Os olhos da Dona Ruth marejaram como quando o Otávio fez a estatua de Santo Agostinho chorar – ele jura que isso nunca aconteceu – mas ela logo recobrou a compostura e passou a ouvir atentamente o plano.

Poucos dias depois, lá estavam eles, alugando o box onde ficava a barraca de temperos do Seu Rivaldo, após conseguirem dois meses de carência no aluguel, coisa rara neste mercado.

– Negócio é o seguinte, mãe, a câmera vai ficar dentro do elefantinho de cima da barraca e vai tirar a foto de quem se aproximar, aí eu tento encontrar alguma coisa básica na internet e passo para você. Tudo o que você precisa fazer é falar o nosso bordão para segurar a cliente por uns segundos e depois mandar ver na isca, sem pesar a mão. Como é mesmo o bordão, mãe?

– A sorte veio te ver, são R$ 90 e você nunca mais vai se esquecer – nossa, que coisa brega!

– Depois a gente vê outro, mãe. Por enquanto, é melhor que nada. Na feira você precisa ter alguma coisa para repetir.

– E se eu esquecer o que você me passar? Tarô exige muita concentração, meu filho.

– Mãe, veja, o fone não vai sair daí. Umas horas eu vou estar lá, recebendo os pagamentos e digitando essas coisas para você, no computador, como quem não quer nada. Outras, vou estar em casa, acompanhando pela câmera. Mas seja como for, eu vou continuar te mandando os detalhes, conforme eles forem surgindo daquelas bases de dados que te falei. Você só tem que ir lendo a sorte da pessoa sem pressa.

– Cer…to.

– O que foi, mãe?

– Jú, mamãe não tem como ler nada do que você escrever nessa hora.

– Não, mãe, já expliquei para a senhora. Eu digito e sai falado no seu fonezinho. Ninguém mais ouve, não tem fio nem nada. É como se fosse uma voz interior.

Tem certeza? Eu não posso ser flagrada com esse fone, meu filho, seria o fim. E também não quero ficar lá sozinha, com essa parafernália toda – replicou irritada.

– Vou falar pela última vez, o fone é microscópico. Ele vai dentro do canal do seu ouvido; é impossível de ver. Se eu ficar o tempo todo lá na feira, vão desconfiar. A câmera resolve, Dona Ruth. Perceba que tudo gira em torno das fotos que ela vai tirar. A pesquisa sai disso. Se não for assim, não vai dar certo.

– Não fala isso, menino. As palavras têm poder. Vai dar certo.

– Sim, vai.

No domingo seguinte começaram. E assim foi.

 


Se você quer saber onde isso tudo vai dar, não perca o próximo.

Sobre o Autor

Álvaro Machado Dias é neurocientista cognitivo, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomadas de Decisão, editor associado da revista científica Frontiers in Neuroscience, membro da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge) e do MIT Tech Review Global Panel. Seus interesses intelectuais envolvem tomada de decisões de um ponto de vista cerebral, efeitos das novas tecnologias na compreensão do mundo, inteligência artificial, blockchain e o futuro da medicina. Contato: alvaromd@wemind.com.br

Sobre o Blog

Este blog trata de transformações de mentalidades, processos decisórios e formas de relacionamento humano, ditadas pela tecnologia. A ideia é discorrer sobre tendências que ainda não se popularizaram, mas que dão mostras de estarem neste caminho, com a intenção de revelar o que têm de mais esquisito, notável ou simplesmente interessante, de maneira acessível e contextualizada.