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Crônicas de uma era: o rei do papel higiênico

Álvaro Machado Dias

31/03/2020 04h00

Erik Mclean/ Unsplash

Quarta-feira de sol no pátio vermelho do predinho. Formigas passam carregando os destroços de um acidente verde como se um temporal se aproximasse. Não fosse a distância, daria para ouvi-las suspirando esbaforidas, pensou o Gino, da janela do 1B.

O que será que as pessoas estariam fazendo esta hora, se o tal vírus não existisse? Estariam que nem essas formigas, sem jamais perceber que se um gigante as observasse da janela, riria de tanta seriedade esbaforida – e também das cinzas sopradas contra o vento, entrando-lhe pela boca. Ah, esses gigantes…

A fragilidade é chave para a sobrevivência neste planeta. É dela que saem as notas do violão de transa, o xadrez humano de construção ou a prosa universal dos papas de Fernando Meirelles. Pouca coisa boa sai à ferro e fogo.

Quem sabe 1% do mundo entende de uma vez isso. Pode ser o caminho para melhorar um pouco o astral do planeta – claro, depois que devolvermos as focinheiras para os cachorros e pudermos nos beijar. Abaixou um pouquinho e beijou Olavo, sheepdog de farta pelagem, parceiro inseparável das tardes filosóficas, com ou sem coronavírus.

Foi neste exíguo intervalo que aconteceu. O Gino até ouviu o barulho e viu a massa branca correr pelo canto dos olhos, mas isso não foi suficiente para que concatenasse tudo. Então, quando olhou para baixou e viu o vizinho naquele estado, engasgou na fumaça e tossiu por uns bons quinze segundos, antes de conseguir falar alguma coisa.

– Cláudio!!! Fala alguma coisa, Cláudio! Tudo legal aí?

– Ai! Aiaiai.

– Que porra é essa, Cláudio? Virou o Batman? Hahahaha.

– Ahhh, meu calcanhar, acho que torci o calcanhar.

– O que foi isso, querido? Podia ter se estrepado, ainda bem que foi só o calcanhar.

– Err, preciso voltar para casa. Abre pra mim, Gino. Desce aqui e abre para mim pois a porta do pátio só abre por dentro.

Fosse o outro o contexto, sem dúvida teria descido sem falar mais nada. Mas, em plena tarde filosófica, a cena do vizinho todo enrolado em papel higiênico despedaçado havia se tornado impagável e não podia ser desperdiçada sem mais nem menos.

– Calma, Cláudio! Quer que eu peça pro Jaime ir aí?

– Não, não. Só abre a porta do pátio para eu entrar. Preciso ir para casa. Isso é…sério!

O simulacro era mutuamente mal representado.

– Hummm, então, espera um pouco que eu já vou.

– Vem agora! Vem agora, seu mole…

– Oi?

– Gino, abre essa porta! Olha meu estado, garoto!

– Pois é, se eu abrir, sem mais nem menos, vou ter que conviver com o inexplicável desta situação para sempre – falou com um sorriso fino. Preciso que você me conte antes o que te fez aparecer aí embaixo. Ao lado do Olavo, parecia a reencarnação do Dick Vigarista.

– É complicado, Gino, é complicado.

– Você é quem sabe. Quiser, só dar uns berros aí, que logo alguém aparece.

– Pulei da janela porque fiquei muito puto.

– Hahahaha! Genial.

– Tudo começou na quarta-feira da semana retrasada, quando fui cortar o cabelo; eu bem notei que o clima estava ficando meio estranho, mas não dei muita bola.

A faxineira tinha vindo e feito comida. Como eu tinha muita coisa do trabalho, fiquei direto até a segunda, desligado dos acontecimentos. Quando finalmente saí de casa, vi que todo mundo que podia havia se preparado para o apocalipse, menos eu.

Não tinha luvas, não tinha máscara, comida, nada. Passei na farmácia e fui direto para o supermercado, na tentativa de garantir minha sobrevivência.

O povo estava enlouquecido. Peguei o que tinha e o quanto tinha. Voltei para casa e fui assistir tevê para desestressar. Estava passando uma reportagem sobre desabastecimento e o repórter estava bem em frente à seção de higiene de um supermercado, totalmente vazia.

Gelei imediatamente. Eu tinha esquecido de comprar papel higiênico! Dez latas de leite condensado, suco de tudo quanto é tipo, sabão de lavar louça, o que você me perguntar, eu trouxe, mas o papel higiênico, que planejei colocar por cima do resto, esse eu não comprei.

De manhã saí para comprar aí nesse express aqui do lado, mas não tinha. Aí eu não sei o que me deu. Entrei em todos os supermercados e farmácias da internet e saí comprando tudo.

– Tudo?

– Todo o papel higiênico que houvesse. Como é só clicar que a compra está feita, foi tudo muito rápido. Fiz a rapa.

– Mancada, Cláudio.

– Segunda começou a chegar. Não tinha armário que coubesse tanto papel higiênico. Resolvi colocar num dos quartos, que tá meio vazio. Encheu. Depois lotei a sala, meu quarto. Até debaixo da mesa eu pus fardo de papel higiênico. É isso.

– Como assim, é isso?

– Gino, imagina você gastar mais de seis paus em papel higiênico, nessa crise. Fazer um cálculo e ver que tem papel higiênico para quase dez anos.

– Mas por que você não doou para quem precisa?

– Não sei. Estava tão estressado, que nem pensei nisso. Enfim, a gota d´água mesmo aconteceu agora pouco, quando outra reportagem disse que não iria ter desabastecimento. Aí foi demais. Me enrolei nuns vinte rolos de papel e me atirei.

– Da janela do primeiro andar?

– É.

– Bom, menos mal, pelo menos o papel serviu para alguma coisa. Pera aí, que estou descendo. Depois te ajudo a se livrar desse fardo.

Sobre o Autor

Álvaro Machado Dias é neurocientista cognitivo, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomadas de Decisão, editor associado da revista científica Frontiers in Neuroscience, membro da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge) e do MIT Tech Review Global Panel. Seus interesses intelectuais envolvem tomada de decisões de um ponto de vista cerebral, efeitos das novas tecnologias na compreensão do mundo, inteligência artificial, blockchain e o futuro da medicina. Contato: alvaromd@wemind.com.br

Sobre o Blog

Este blog trata de transformações de mentalidades, processos decisórios e formas de relacionamento humano, ditadas pela tecnologia. A ideia é discorrer sobre tendências que ainda não se popularizaram, mas que dão mostras de estarem neste caminho, com a intenção de revelar o que têm de mais esquisito, notável ou simplesmente interessante, de maneira acessível e contextualizada.