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Crônicas de uma era: o último abraço

Álvaro Machado Dias

14/04/2020 17h09

O simpósio sobre problemas globais começou animado, após o fiasco do ano anterior. Quem primeiro subiu ao palco da sede virtual da Organização foi Eva, holograma capaz de se materializar na sala dos milhares de expectadores e ali oferecer seu discurso de boas-vindas na língua local. Depois entrou a diretora-geral, Alexandra Muraffo, que saudou os membros do painel digital e fez um rápido histórico dos desafios recentes da área saúde, começando pela pandemia de Covid-19, divisor de águas de vinte anos atrás.

– Estudos dos anos 20 apontavam que a população humana iria crescer até a virada do século; hoje, somos obrigados a lidar com projeções distintas, baseadas em taxas de fertilidade aceleradamente decrescentes, em mais de metade do planeta. É nossa obrigação apontar caminhos para que possamos sair desta situação. Com objetivo de mostrar os mais recentes avanços nesta direção, agora falará o superintendente para assuntos ligados à reprodução humana, o professor emérito da Faculdade de Medicina de Harvard, Dr. Paul Bassen.

– Saudações a todos. Como muitos de vocês sabem, o programa de reprodução molecular extrauterina rápida (FMRP) foi desenvolvido para reverter a queda nas taxas de reprodução nos países em que ela foi mais acentuada, durante a segunda metade dos 30. Foram quatro anos de tentativas, até que em 2039 tivemos que encerrar o programa, em função da baixa adesão e de ataques recebidos, muitos deles sem fundamento algum.

Só no Japão doze aparelhos de FMRP foram vandalizados por casais que declararam interesse em levá-lo para casa e assim acompanhar o processo de formação embrionária. Vejam, estes são casais que nos procuraram com a intenção de ter um filho, a despeito da falta de desejo de se relacionar sexualmente um com o outro, e que, na hora do vamos ver, destruíram o nosso equipamento, eliminando as células germinativas e, por vezes, embriões já sintetizados. O mesmo padrão foi observado em diversos países da Europa e nas Américas.

Ao longo do último ano, fizemos um grande esforço para compreender as raízes do insucesso do FMRP e a forma de pensar da Geração C, com são conhecidos os jovens nascidos na década de 20 e que, mais do que nunca, precisamos sensibilizar.

Isto trouxe frutos positivos e é com grande satisfação que apresento o Programa de Otimização da Fecundação Humana (HRRP). Seu princípio é simples: oferecer gratuitamente uma terapia molecular com zero risco mutagênico, capaz de assegurar até 98% de chance de fecundação em qualquer relação heterossexual não protegida, entre parceiros que não sejam portadores de disfunções reprodutivas e que tenham menos de 45 anos.

A terapêutica turbina dramaticamente os gametas, ao mesmo tempo em que reduz os abortos espontâneos e outros eventos adversos. Trata-se de uma mudança de paradigma importante; ao invés de colocarmos ênfase na assistência aos casais que não querem fazer sexo, depositaremos esforços na fertilidade daqueles que o desejam.

O sinal piscando embaixo do display do orador indica que alguém do painel digital está pedindo a palavra – não uma pessoa da audiência, em algum canto do planeta, mas alguém que a organização chamou para participar. Mesmo em casos como este, as solicitações de fala costumam ser ignoradas, dado o tempo rigorosamente contado que cada um tem. Mas, desta vez, foi diferente e o Dr. Bassen abriu o microfone para quem o solicitava.

– Não vai funcionar. Nada disso vai funcionar. Vocês não percebem?

– Por que não vai funcionar, senhorita…?

– Prof. Dra. Luiza Chavez, presidente da associação interamericana de bem-estar. A voz fina, levemente trêmula, entregava algo que não cabia em seus títulos.

Não vai funcionar porque o diagnóstico está errado. Bebês não estão nascendo porque as pessoas não querem. Não é uma questão de ser mais fácil ou mais difícil engravidar. O problema é que a intimidade está muito em baixa; o sexo, ou a fertilidade, se é que estão mesmo em baixa, são meras consequências.

– O que te leva a pensar isso?

– Não sei…parece que desaprendemos a estar juntos de verdade.

– E como isso aconteceu?

– Aconteceu no abandono do abraço.

– Abraço??

– Sim. O abraço é o verdadeiro teste do sofá. É ele que determina se alguma coisa de verdade pode rolar. O abraço cria uma espécie de casulo de gestos, onde as pessoas que se gostam aprisionam o ar para respirarem juntas. É disso que nasce a intimidade. Depois que abolimos o abraço, os encontros entraram em parafuso. Quase ninguém passa do primeiro e, quando isso acontece, formam-se mais duplas do que casais.

– Acho que você está se confundindo, doutora. Este é o papel do beijo. Eu não sei se você sabe, mas fizemos amplos estudos sobre o beijo e concluímos que, no fundo, não faz muita diferença para a taxa de reprodução na nossa espécie.

– Olha, eu não conheço esses estudos, mas acho que o ponto do beijo é outro. Existe um tipo de beijo que serve para dizer coisas, uma espécie de contrato social. Pessoas se beijando comunicam que estão juntas, como sócias mesmas, especialmente se o beijo é selinho. Outro tipo de beijo é como sexo portátil; esta é sua sintonia.

Já o abraço se manifesta na sintonia da intimidade, não serve de contrato e nem funciona como transa – desculpe a expressão – em miniatura. Por outro lado, o desejo de ter filhos com alguém nasce em seu casulo, a partir da inspiração do ar compartilhado.

– Humm, interessante. Sabe dizer por que os abraços entraram em decadência?

– Suspeito que isso começou há décadas, com os aplicativos de relacionamento, que nos permitem escolher pessoas como quem escolhe produtos. A sensação de abundância faz com que as dispensemos de maneira análoga, assim que deixam de atender às nossas aspirações. Na turma da minha filha, todo mundo dispensa e é dispensado o tempo inteiro. Essa velocidade não está no tempo do abraço, que precisa refazer seu casulo inúmeras vezes até que de seus gestos saia uma mariposa.

– Quer dizer que não foram as nossas campanhas que mataram o abraço? Sabia que não éramos culpados por pelo menos alguma coisa! Hehehe.

– Não. Seu declínio é de fato anterior e tem origem na tecnologia digital, que fascinava nossos antepassados com aquilo que os economistas chamaram de redução friccional. Mas, é claro, aí vieram as epidemias da década de 20, os robôs de companhia e, batata, a gente perdeu o rumo.

– Batata?

– Esquece. Isso é uma expressão local, que o sistema de tradução não captou.

– Ah, ok. E o que você sugere que façamos?

– Eu não iria comentar, mas, já que você perguntou, aqui na nossa entidade organizamos um programa para fomentar o abraço. A premissa é que este hábito seja restituído ao repertório humano, desde a mais tenra idade; por isso, ele começa com a instituição do abraço no repertório das crianças, a partir do maternal II.

– Mas como isso seria feito?

– De duas maneiras: através de cursos de formação de professores e cláusula curricular. Para os cursos, nós concebemos uma espécie de holograma do abraço. É um coala gigante, que ensina os professores a abraçar.

– Ensina a abraçar?

– É. Porque as pessoas desaprenderam o abraço.

– Hummm.

– E para as escolas, a ideia é que os professores formados nos nossos cursos digitais sirvam de facilitadores e ensinem às crianças como se abraçar. Essa seria a primeira aula do dia, todos os dias.

– Mas, uma dúvida, maternal não tem currículo obrigatório – não que eu saiba.

– Sim, o programa é ambicioso e se propõe a alterar isso. Depois, nas idades subsequentes, a mesma coisa deve ser replicada, até o fim do ensino médio. E assim teremos o abraço de volta em uma geração ou menos!

– Doutora, se entendo bem, você quer obrigar as crianças e adolescentes a se abraçar e acha que isso é que vai resolver nossos problemas de relacionamento?

– Não! Claro que não. Esta é uma fala extremamente capciosa. Nosso princípio é do nudge, da facilitação, que permite que os comportamentos represados ganhem tração. Nada além disso.

– Mas você não acha que pode ter algo de artificial nesses abraços…induzidos?

– De maneira alguma. Artificial é esse negócio de mexer na biologia das pessoas para conseguir aquilo que a natureza sozinha não permite. Isso sim é artificial.

– Eu tendo a discordar. Veja, nosso programa de turbinagem da fecundação – e mesmo o FMRP – não mexe com o livre-arbítrio das pessoas, não se propõe a inserir comportamentos onde eles não existem. Apenas oferece as ferramentas certas para quem as quer utilizar.

– Bom, meu conceito de ferramenta certa é outro. Não consigo conceber tratamento de gente saudável como ferramenta certa. Aliás, sem querer ofender, mas, note, em poucos anos estaremos comemorando os cem anos do fim da segunda grande guerra. Esse tipo de coisa me lembra os experimentos brutais do período.

– Que insulto! Ainda mais vindo de quem quer fazer experimentos comportamentais que lembram as lavagens cerebrais da guerra da Coréia, do estado soviético, da prisão de Guantanamo.

– De onde você tirou isso? Sou eu quem quer fazer experimento biológico por acaso?

– O que você quer é pior.

E assim prosseguiu o debate, animado, até o esgotamento do tempo, para a sorte dos bebês que ainda não haviam se comprometido a nascer.

Sobre o Autor

Álvaro Machado Dias é neurocientista cognitivo, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomadas de Decisão, editor associado da revista científica Frontiers in Neuroscience, membro da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge) e do MIT Tech Review Global Panel. Seus interesses intelectuais envolvem tomada de decisões de um ponto de vista cerebral, efeitos das novas tecnologias na compreensão do mundo, inteligência artificial, blockchain e o futuro da medicina. Contato: alvaromd@wemind.com.br

Sobre o Blog

Este blog trata de transformações de mentalidades, processos decisórios e formas de relacionamento humano, ditadas pela tecnologia. A ideia é discorrer sobre tendências que ainda não se popularizaram, mas que dão mostras de estarem neste caminho, com a intenção de revelar o que têm de mais esquisito, notável ou simplesmente interessante, de maneira acessível e contextualizada.