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Profusão de aplicativos dificulta a vida dos idosos na quarentena

Álvaro Machado Dias

12/05/2020 14h23

Com Renato Meirelles, CEO do Instituto Locomotiva.

Vamos começar por algo inédito. E relevante por si só.

Desde que a pandemia de COVID-19 aterrissou no Brasil, o Instituto Locomotiva conduziu um conjunto sistemático de pesquisas sobre os impactos da doença na vida dos brasileiros.

Uma de nossas pesquisas, conduzida em parceria com a DOTZ, envolveu 5872 pessoas maiores de 18 anos e teve como objetivo primário mapear o comportamento dos brasileiros frente à necessidade de se isolar espacialmente e ficar em casa.

Na fase de tratamento estatístico, categorizamos os respondentes em adultos saudáveis, adultos de risco (portadores de doenças que aumentam as chances de morrer de COVID-19), idosos saudáveis e idosos de risco. Idosos de risco seguem o critério relativo à presença de doenças pré-existentes, ainda que saibamos, do ponto de vista clínico, que todos os idosos são de risco.

Eis alguns dos resultados que encontramos, que muito nos surpreenderam e que compartilhamos em primeira mão com vocês:

 

O quanto você concorda com a seguinte frase: nos últimos sete dias eu fiquei em casa.

Adulto 69,78%

Adulto Grupo de Risco 68,00%

Idoso 55,78%

Idoso Grupo de Risco 80,11%

 

O quanto você concorda com a seguinte frase: nos últimos sete dias eu não participei de eventos sociais.

Adulto 76,67%

Adulto Grupo de Risco 72,67

Idoso 63.78%

Idoso Grupo de Risco 77,78%

 

Em média, por quantas horas você permaneceu fora de casa quando saiu nesses últimos sete dias?

Adulto: 3 horas e 32 minutos

Adulto Grupo de Risco: 3 horas e 58 minutos

Idoso: 3 horas e 20 minutos

Idoso: Grupo de Risco 2 horas e 13 minutos

 

Nos últimos sete dias, em quantos você saiu de casa?

Adulto 2.45

Adulto Grupo de Risco 2.43

Idoso 2.70

Idoso Grupo de Risco 1.99

 

Conforme é possível notar, os idosos saudáveis saíram mais dias à rua do que os adultos saudáveis e participaram de mais eventos sociais. Por outro lado, suas saídas foram um pouco mais curtas do que as dos adultos, o que pode estar relacionado ao fato destes últimos estarem, prioritariamente, saindo para trabalhar.

De uma forma ou de outra, a grande questão é que as ruas estão – ou estavam durante o período em que as perguntas foram respondidas – com muito mais idosos do que seria de se imaginar se estivéssemos tratando de "agentes racionais".

O objetivo deste artigo é ajudar a entender estes resultados e sua relação com a tecnologia.

 

Por que as pessoas – e os idosos em particular – não estão se cuidando mais?

As razões pelas quais as pessoas burlam recomendações que podem salvar suas vidas são várias. Aqui na Locomotiva estamos começando a entender isso para além de teorias e especulações, uma vez que fizemos pesquisas subsequentes igualmente amplas para obter tais respostas.

Há, de qualquer maneira, uma estrutura geral que pode ser aplicada:

Em primeiro lugar, impõem-se as urgências de quem é forçado a sair de casa para não passar fome, sobretudo nas favelas, além de médicos, enfermeiros e outros profissionais considerados essenciais neste momento.

Em segundo lugar, impõe-se o peso das determinações institucionais e da lógica de grupo que lhe confere legitimidade moral. Se estas determinações são homogêneas, inclinações consensuais tendem a emergir e mesmo aqueles que discordam tendem a segui-las. Já se há conflitos de agência, como é o caso no Brasil, a moral de grupo é enfraquecida e uma brecha se abre para quem prefere se ater apenas àquilo que lhe é conveniente.

Depois vêm as questões mais individuais, solipsistas. Otimismo, autoengano, miopia sobre o futuro, assim como ansiedade, tendências obsessivas e o par introversão/extroversão impactam o apetite ao risco de cada um e, consequentemente, o grau de exposição.

Uma das questões individuais que não pode ser subestimada é da capacidade substitutiva de cada um. Quando somos alijados de algo que nos é importante – como o contato presencial com nossos parentes e amigos – tendemos a procurar formas de compensar isso e preservar nossa satisfação com a vida. Uma das formas mais elementares é o suprimento virtual de nossas necessidades práticas, outra é a virtualização relacional.

É possível especular que os idosos da nossa amostra estão sob o signo do ruído institucional – como estão os brasileiros em geral – mas não seria sensato atribuir o padrão observado apenas a isso, uma vez que os idosos de maior risco são os sujeitos que menos se expõem. A nossa hipótese é que dificuldades substitutivas tornam o isolamento social mais sofrido, estimulando os mais saudáveis a saírem às ruas.

 

As dificuldades substitutivas dos idosos podem ser divididas em blocos

Se há uma característica tipicamente humana, esta é a tendência a fundir aspectos diversos da experiência em realidades fenomenológicas aparentemente irredutíveis. Isso, contudo, não nos impede de tentar organizá-las para melhor as compreender.

No caso das dificuldades tecnológicas que dificultam a quarentena dos idosos, um bloco combina aspectos econômicos e culturais gerais: na média, idosos têm renda menor, acesso mais limitado à internet, aparelhos celulares de má qualidade, menos desenvoltura para realizar tarefas digitalmente e uma relação com o mundo baseada em práticas fundamentalmente analógicas.

Em seguida, vêm as dificuldades relacionais. Conforme a vida avança, as relações sociais tendem a diminuir numericamente e a se concentrar nos amigos mais próximos e na família, cuja disponibilidade passa a ser muito mais determinante no combate à solidão, do que ao longo das fases mais produtivas da vida. Se estes familiares não se mostram muito disponíveis para interagir digitalmente com o idoso, este tende a se sentir mais solitário, o que novamente o puxa para a rua.

Finalmente, vêm as dificuldades específicas no trato das tecnologias digitais. Ainda que a completa indisposição para se conectar esteja em franco declínio entre os idosos brasileiros, fato é que a grande maioria acolhe as novas tecnologias de maneira bastante limitada, sob uma lógica que chamamos de "passividade tecnológica".

Estas são pessoas que respondem positivamente quando guiadas e estimuladas, ao mesmo tempo em que não se sentem capazes de protagonizar iniciativas digitais. Por exemplo, se a família marca uma videoconferência e manda um link, o sujeito clica e participa mas, nem por isso, consegue organizar seus próprios encontros virtuais.

No nosso ponto de vista, a passividade tecnológica bloqueia a substituição compensatória no âmbito das relações entre pares, estimulando o idoso a sair de casa.

Apesar de aparecer por último em nossa lista, tal fator não deve ser desprezado. Tanto pelo contrário, como isso tudo interage e se reforça, acaba tendo impacto muito maior no comportamento do que pode parecer à primeira vista.

Nas seções seguintes, apresentamos duas características das tecnologias digitais dominantes no Brasil, que contribuem para esta situação deletéria para os idosos.

Lado A: interoperabilidade

Quando o telefone surgiu, quem possuía o revolucionário aparelho não podia sair ligando para qualquer um que também o tivesse; muito pelo contrário, os ramais eram separados. Foram necessárias décadas até que estivessem conectados.

Hoje em dia, ligamos para telefones celulares e fixos, sem nos atermos à importância desta inovação para a vida contemporânea. No mundo da telecomunicação existe interoperabilidade.

A mesma coisa se aplica ao e-mail, que hoje em dia é agnóstico em relação ao provedor, ou seja, que permite que eu mande uma mensagem do meu @usp para o seu @uol, sem me preocupar com a chance dele se perder no caminho.

Se é assim, porque é que não posso mandar uma mensagem do meu WhatsApp para o seu Facebook Messenger que são da mesma empresa; ou, ainda, porque não posso te chamar do Skype para falar com você, que só aprendeu a usar o Zoom?

O que, de tão extraordinário, separa a possibilidade de dois provedores de e-mail se comunicarem, da possibilidade de dois serviços de webconferência ou de mensagens pela internet fazerem o mesmo?

Quer a verdade? Nada, ou melhor, nada remotamente alinhado aos interesses da sociedade. Tanto é que assim que o Facebook já declarou que vai integrar o Messenger ao WhatsApp e o Skype permite a inicialização de uma conversa no Zoom de dentro de sua aplicação – desde que você esteja usando a versão paga ou "for Business" do produto da Microsoft.

A interoperabilidade corporativa é um problema conhecido, que vem sendo tratado com atenção crescente pelas gigantes da comunicação digital, bem como por algumas startups, como a pexip, que oferece o que se convencionou chamar de Integration as a Service, para facilitar a vida dos executivos e suas equipes, nessa Babel da comunicação digital.

O grande porém é que quem mais sofre com problemas de operabilidade não consome as versões pagas dos aplicativos de comunicação digital, nem pode pagar por um serviço que junte tudo isso e lhe permita centralizar seu conhecimento e foco digital.

Seria ingênuo assumir que as empresas de tecnologia vão se mobilizar espontaneamente para resolver tal problema, uma vez que a resolução tende a ir de encontro ao sonho do monopólio próprio.

É bem mais cômodo investir para que as dificuldades dos usuários mais velhos sirvam de catalizador na formação de consenso em torno da solução que disponibilizam. É justamente por este ângulo que se pode entender o movimento para liberar webconferências de até 50 participantes no WhatsApp, ao invés de agir mais diretamente para facilitar a vida de todo mundo.

 

Lado B: integrações

Se a interoperabilidade é o Lado A da passividade tecnológica, a ausência de integrações entre soluções digitais complementares é o Lado B.

Em linhas gerais, falta de interoperabilidade e ausência de integrações entre soluções digitais complementares criam problemas semelhantes, limitando a desenvoltura digital de idosos e outros, que têm dificuldade para baixar um sem-fim de aplicativos, preencher cadastros com confirmação do e-mail, aprender suas respectivas lógicas de funcionamento e assim por diante.

O grande diferencial está na maneira como o mercado vem tratando estas questões. Enquanto a interoperabilidade é carta fora do baralho para quem dita as regras do jogo, a solução para o problema das integrações subsidia alguma das maiores iniciativas digitais da nossa era. Neste caso, o exemplo mais bem sucedido é o chinês WeChat, que personifica o conceito de super-app, isto é, de plataforma onde as outras soluções podem se integrar com facilidade, evitando o périplo descrito acima.

Por meio dele, é possível mandar mensagens, fazer ligações dentro e fora do país, transferir dinheiro, pedir comida, jogar e assim por diante.

É bom para os mais velhos, mas péssimo para a sociedade como um todo.

Isto porque o WeChat – e os outros super-apps, como o Alipay (China) e o Go-Jek (Indonésia) – tratam as aplicações abrigadas sob seu guarda-chuva como coadjuvantes que podem ser removidos, de acordo com seus interesses. Definitivamente, não é o que Rappi ou Ifood imaginam para os seus negócios, nem aquilo que melhor pode servir a nossa população.

Assim, na prática, o problema se encontra tão órfão de soluções socialmente adequadas quanto o da interoperabilidade.

Quem sabe esta época de mudanças tão dolorosas pode ajudar a mudar este cenário.

 

Considerações finais

Internet ruim, celulares velhos, hardwares e softwares com usabilidade concebida para o público mais novo, concepção de mundo alheia à lógica das tecnologias digitais e muito mais – assim vem sendo a experiência dos mais velhos, que a necessidade imperiosa de ficar em casa agrava.

O ponto central deste artigo é que devemos adicionar a esta lista dois fatores muito pouco discutidos – interoperabilidade e integrações – que contribuem significativamente para a passividade tecnológica, que caracteriza a relação da maioria dos idosos com a tecnologia.

Não é fácil solucionar os desafios que impõem sem cair em arapucas maiores – monopólios, regras que podem limitar a inovação e externalidades de todos os tipos. Ainda assim, é importante que se desenvolva uma agenda de debates em torno destes pontos e que as empresas de tecnologia incorporem de uma vez por todas o compromisso com a autonomia digital de quem fica em casa.

Nunca na história isso foi tão importante.

Sobre o Autor

Álvaro Machado Dias é neurocientista cognitivo, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomadas de Decisão, editor associado da revista científica Frontiers in Neuroscience, membro da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge) e do MIT Tech Review Global Panel. Seus interesses intelectuais envolvem tomada de decisões de um ponto de vista cerebral, efeitos das novas tecnologias na compreensão do mundo, inteligência artificial, blockchain e o futuro da medicina. Contato: alvaromd@wemind.com.br

Sobre o Blog

Este blog trata de transformações de mentalidades, processos decisórios e formas de relacionamento humano, ditadas pela tecnologia. A ideia é discorrer sobre tendências que ainda não se popularizaram, mas que dão mostras de estarem neste caminho, com a intenção de revelar o que têm de mais esquisito, notável ou simplesmente interessante, de maneira acessível e contextualizada.