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Álvaro Machado Dias

Neuropolítica: como diferentes líderes discursam sobre impacto da covid-19?

Álvaro Machado Dias

25/08/2020 04h00

Crédito: Jim Watson / AFP

Ernest Benn era um publisher e autor inglês, convertido ao liberalismo durante a segunda década do século 20. Com exceção de alguns sites de nicho, poucos fazem referência aos vinte e tantos livros que escreveu. Vai ver que é porque suas ideias não eram, digamos, muito boas, vide a de que ninguém deveria poder votar antes de ler os onze volumes da obra de Jeremy Benthan.

Seu maior legado é ter um dia inventado uma definição tão cruel para a política, que as futuras gerações assumiram que era do genial Marx.

Groucho, é claro. "Política é a arte de procurar por encrenca, encontrá-la onde não existe, diagnosticá-la de maneira incorreta e aplicar o remédio errado".

A primeira parte é meio óbvia: políticos jogam para a plateia e não sobrevivem sem contendas. Já a outra parte está longe de ter a universalidade sugerida. Há diagnósticos melhores e piores, assim como há remédios. O curioso é notar que o real charme do bordão venha da parte injusta. Creio que seja porque ela se conecta à ambivalência com que nos aproximamos da política, quase sempre meio céticos sobre a capacidade e real intenção de nossos políticos – mas sempre prontos a entrar numa boa briga por eles. Ou seria por nossos ideais?

Sou inclinado a achar que é um pouco dos dois. De um lado, a política serve de arena para cada um dos amantes da arte do quebra-pau exercer um pouco seu hobby preferido, como quem escolhe personagens para jogar Fifa online. De outro, há, sim, convicções genuínas mobilizando os times em campo.

O plano das convicções, ao menos em linhas gerais, é também o do bem comum. Entre o suposto e o efetivo, defensores de bandeiras ancoram-nas em modelos mentais da sociedade que lhes parecem melhor do que as alternativas que associam aos grupos políticos que rechaçam.

Vejam, isto não alivia a barra de quem serve de esteio às más práticas. Pessoalmente, sou um amante do iluminismo e acredito que Steve Pinker esteja certo em dizer que a promoção da liberdade de práticas sociais e manifestações da subjetividade tenha tornado a vida melhor em boa parte do mundo, ao longo dos últimos dois séculosceteris paribus (considerando que todo o resto permanece igual), quem tolhe direitos, recrimina opções de subjetivação, de manifestação da sexualidade, ou simplesmente enche o saco dos outros no que se refere àquilo que fazem com a sua própria vida aumenta a infelicidade no mundo.

Em paralelo, há a alienação, brecha antiga para spammers e trojans do mundo real. É extremamente perigoso tratar a participação política como uma espécie de simulação, alijada de impactos sobre o real, sob a premissa de que o verdadeiro jogo político será decidido longe dos olhos de quem votou, de que político só pensa em seus próprios interesses – ou qualquer outra desculpa para lavar as mãos. Como bem notou o rei das palestras no Youtube, Platão, quem não liga para política acaba sob o julgo dos piores líderes (ele usou "de seus inferiores", mas o sentido era esse).

Pois uma coisa interessante a se notar é que a caldeira em que se formam as convicções é mais profunda do que parece supor a maioria dos cientistas políticos da atualidade. Não tome este argumento como prelúdio da famosa falácia do espantalho; eu não vou pegar um cientista político que disse alguma coisa infeliz qualquer, generalizar, e sair com uma pérola do tipo "a ciência política está toda errada, aqui está o certo". Isto seria de uma ingenuidade atroz.

Quando falo em mais profundo, estou mesmo aludindo a uma distância medida desde a superfície em que o caldo fervente entorna e, neste sentido, de uma infraestrutura das inclinações políticas, que costuma ser ignorada, mas que pode somar ao entendimento de perfis e identificações.

A estrutura constitucional do sujeito político

A principal razão para se ter uma convicção é o fato desta ter sentido instrumental na vida de quem a retém, tipo o que o Bentham amado pelo mala, digo, controverso, Ernest Benn dizia.

Cada convicção (um tipo de crença consciente e inabalável) tem um papel a exercer na legitimação de outras tantas convicções (e crenças). Juntas, formam um sistema, cuja manutenção parece mais vantajosa do que as alternativas que o indivíduo consegue imaginar. Se você gosta de fórmulas, aqui vai uma que criei para resumir isso: convicções são intenções em forma não propositiva, que se aderem a um sistema, o qual repele a dissonância. Podemos chamar este de maçaroca ou, para sermos mais elegantes, sistema de crenças.

Não é porque seu pai quer, porque você foi educado de um jeito, ou porque seu inimigo recrimina, que você acredita em xis; em geral, é porque sua vida foi evoluindo de modo a fazer de xis uma espécie de consequência natural de outras tantas crenças, as quais formam uma maçaroca que lhe parece relativamente boa ou, no mínimo, inevitável, à luz das alternativas. Obviamente, o erro está na visão equivocada – ou limitada – das alternativas, como Herbert Simon não cansava de dizer, quando tentava explicar os vieses decisórios em suas manifestações mais mundanas.

Assim se entende o porquê das pessoas acreditarem naquilo que lhes é deletério: a crença específica é consequência indesejável de uma maçaroca cujo abandono parece ter custo da oportunidade superior à sua afirmação. Há uma espécie de racionalidade na resistência à mudança, cuja presença passa longe de ser desarrazoada. Essa é uma das conclusões mais pervasivas do meu trabalho com pacientes psicológicos e psiquiátricos, além de executivos em busca de aperfeiçoamento decisório, nos anos formadores da minha visão de mundo.

Tal como na época em que tinha clínica e também fazia par com o inestimável José Ernesto Bologna, acredito que o papel da intencionalidade é forte demais para comprar a ideia de que essas pessoas que passam o dia destilando ódio pelas redes sociais (ai como como sou grato ao bom senso por jamais ter entrado nessa) não tenham liberdade para fazer escolhas políticas, de que é tudo culpa da bolha em que vivem, etc.

Por outro lado, quanto mais o conhecimento sobre a mente humana evolui, mais claro fica que as estruturas mentais em que as convicções políticas vão se acomodar têm sua constituição influenciada por vicissitudes parcialmente independentes de qualquer experiência específica. Neste sentido, há certa justeza na ideia de que as escolhas políticas não são apenas intencionais – apenas isso não se dá pela via mais óbvia e disseminada.

O mais surpreendente, do ponto de vista das evidências acumuladas, é que estes aspectos não intencionais não se reduzem apenas à cultura local, relações familiares, formações inconscientes e outros denominadores inegavelmente importantes. Hoje está bem claro que os chamados endofótipos cerebrais têm papel relevante na definição de algumas linhas gerais da maçaroca.

O botânico Wilhelm Johannsen desenvolveu o famoso par opositivo genótipo/fenótipo, durante os primeiros anos do século XX, para se referir aos componentes hereditários e os traços que deles emergem. Hoje em dia, esta ideia se ampliou bastante. Sabe-se, por exemplo, que genes são ligados e desligados milhares de vezes no interior de nossos corpos para que estes funcionem direito e que aquilo que acontece durante a expressão dos genes (epigênese) é fundamental na definição dos traços fenotípicos. Outra coisa que se sabe é que existem diferentes tipos de fenótipos, sendo que no caso de alguns o ambiente é mais crítico do que no caso de outros, ainda que para todos eles a mistura gene-ambiente tenha papel determinante.

Endofenótipos são fenótipos de dentro do corpo, como o do seu sangue, ossos ou membranas. Está bastante estabelecido que, na ausência de perturbações do desenvolvimento e traumas mais sérios na vida adulta, endofenótipos serão menos determinados pelo ambiente do que os fenótipos externos. Por exemplo, as características que a pele do seu rosto apresenta são mais fortemente determinadas pelo seu nível de exposição ao sol do que a estrutura do seu córtex pré-frontal é determinada pela sua exposição a más ideias – ou mesmo padrão educacional -, ainda que, em ambos os casos, haja efeitos e eles não sejam nada desprezíveis.

O assunto é novo e a discussão, quente. Na minha opinião, os principais endofenótipos na determinação de sistemas de crenças que acomodam convicções políticas são: padrões neuro-hormonais, flutuações da estabilidade cortical e empacotamento dos neurônios em áreas específicas do cérebro, como gânglios da base, córtex ventromedial, junção têmporo-pariental e giro do cíngulo. A razão para esta opinião é simples: tais fenótipos internos (organelas) são os que melhores explicam os dados comportamentais que repetidamente emergem quando analisamos o comportamento de quem têm fortes convicções políticas, sejam estas quais forem.

Um aspecto interessante dos endofenótipos é que não são mero conhecimento inútil, o famoso good to know. Muito pelo contrário, eles tanto podem ser usados para ampliar o entendimento sobre as orientações políticas individuais e coletivas (mais especificamente: sobre o sistema de crenças que acomoda suas convicções), quanto podem tornar aplicáveis os resultados de estudos genéticos sobre política, os quais existem há tempos.

Do mais, eles estão na base de traços comportamentais (fenótipos externos) que as pessoas usam no teste do sofá que as lideranças políticas devem fazer para poderem trabalhar de representantes comerciais na holding do sistema de crenças.
Por exemplo, o tom de voz influencia a percepção de autoridade, liderança, segurança e confiabilidade de figuras públicas, conforme experimentalmente reportado por vasto número de estudos.

Genes trabalham juntos na constituição física do aparelho fonador, que por sua vez é determinante para tal traço comportamental. Em particular, os músculos que suportam a laringe têm papel crítico. Estes músculos, junto com os programas neurológicos que os controlam, representam endofenótipos importantes para o tom de voz, fazendo a ponte entre a genética e a cultura (por exemplo, a língua falada), perfil psicológico, intencionalidade e emoções incidentais.

Portanto, se o objetivo é determinar o papel do tom de voz na percepção de autoridade, liderança e outros traços comportamentais que tendem a ser contratados em grande parte dos sistemas de crenças, importa: a. circunscrever os endofenótipos relevantes junto às características comportamentais emergem dos mesmos; b. mapear estas características, relacionando-as ao impacto causado nos diferentes grupos de indivíduos.

Antes disso, claro, é fundamental entender qual o papel dos genes nessa história toda, afinal, sem eles não teremos como definir o papel de estruturas biológicas, nem a possibilidade de estabelecer os limites, a partir dos quais as influências ambientes mais pontuais serão determinantes.

Um estudo australiano envolvendo 12.000 pessoas mostrou que, ao menos nesta amostra, gêmeos univitelinos têm maior afinidade política do que gêmeos fratermos. Este resultado foi confirmado em diversos estudos independentes, inclusive um que envolveu mais de 600 pares de gêmeos americanos. Quem permanece cético deve considerar que não há um único artigo experimental recente publicado em revista de alto impacto sugerindo o contrário. O resultado é importante porque minimiza o papel do ambiente enquanto variável de confusão.

Este ano saiu uma revisão bem ampla, que lista uma série de estudos independentes os quais chegam à mesma aproximação: a influência genética nas escolhas ideológicas é de cerca de 40%.

Quando somos estimulados a pensar em estudos comportamentais com gêmeos, geralmente tendemos a imaginar bebês ou crianças que fazem tudo do mesmo jeito, até o dia em que saem de casa, se casam e começam a se parecer cada vez mais com as pessoas com quem circulam. Pois não é assim.

Um dos mais fortes paradigmas da genética do comportamento é que durante a juventude – especialmente a adolescência – as diferenças se acentuam, provavelmente por força de mecanismos de afirmação identitária; mas, na medida em que as defesas baixam, os comportamentos vão ficando surpreendentemente parecidos, conforme dezenas de estudos com gêmeos univitelinos que cresceram separados mostram. Vale dar uma olhada neste estudo sobre gêmeos idênticos coreanos separados ao nascimento e criados em países diferentes, para se familiarizar com as evidências de que estou falando.

É sabido que genes que são importantes na determinação de traços psicológicos também mediam opções ideológicas, no âmbito das maçarocas mentais. Ainda que a relação seja correlacional e não causal, há um grande volume de evidências sugerindo que traços como personalidade, orientação dominante, medo social e inteligência estão na rota da orientação política de cada um.

À luz desta conhecida relação não é tão difícil desenhar estudos de correlação capazes de avançar algumas casas a mais em sentido à compreensão das convicções em si. Um deles, citado centenas de vezes, identificou que conservadores tendem a olhar mais para "o lado ruim", enquanto liberais olham mais para "o lado bom"; isto é, quando abordam uma oportunidade, os conservadores tendem a dedicar proporcionalmente mais atenção àquilo que pode dar errado (aversão a riscos), enquanto liberais tendem a dar mais atenção às recompensas que podem surgir dali (apetite ao risco).

Uma consequência política inexplorada disto é que liberais tendem a olhar mais para os seus candidatos, enquanto os conservadores tendem a olhar mais para…os mesmos candidatos!

Entendeu? Simples: o candidato liberal representa um estímulo positivo para seus eleitores, ao passo que o candidato conservador representa um estímulo aversivo para os seus. No final, o liberal tende a estar sob mais holofotes, o que tanto aumenta seus riscos, quanto traz oportunidades.

Outro conjunto de evidências interessante revela que liberais e conservadores utilizam a linguagem de maneira diferente. Enquanto os primeiros têm predileção pelas conjunturas discursivas, feitas dos chamados planos multi-dimensionais (na prática, advérbios e outras conjunturas que vão criando franjas), conservadores tendem a ter maior predileção por ideias em linha reta, compostas com mais substantivos.

Esta tendência tende a ter sua gênese em posições distintas quando o assunto é o trade-off entre objetividade e precisão, a qual por sua vez tem a ver com uma complexa disposição endofenotípica sobre como o indivíduo prefere montar seus mapas mentais. Não vou entrar em detalhes, mas vale considerar que, no final, tem a ver com memória de trabalho e outras funções mentais simples.

Na prática, este conhecimento sugere que discursos persuasivos que procurem falar com ambos os lados devem estimular a produção de modelos mentais que favoreçam a objetivação, mas que ainda assim contem com alguns condicionantes. Parece ilógico? Então adicione a perspectiva de que o rechaço discursivo é assimétrico e você terá a sua lógica, linearmente estruturada.

Mas, aqui vai uma dica: não saia aplicando isso no seu dia a dia. Os grupos políticos brasileiros não são esses daí (claramente: democratas e republicanos). Sem entendimento efetivo da conjuntura local o tiro sairá pela culatra.

Resultados inéditos de um estudo aplicando endofenótipos cerebrais à política

Ao longo dos últimos meses, eu e meu sócio e amigo de todas as horas, Renato Meirelles (presidente do Instituto Locomotiva), viemos explorando conclusões como estas acima, na intenção de compreender um pouco melhor o momento político atual e o que deve vir a seguir.

Uma das prerrogativas que rapidamente nos atraiu é o fato de que os discursos políticos são fortemente desenvolvidos na esfera não declarativa; a conexão com a população é mais tácita do que explícita.

Por isso, entonação, ritmo, intensidade, duração, altura e outros aspectos energéticos da fala do político são determinantes para a sua aceitação pública. Estes fatores são como um varal que entrecruza as maçarocas mentais, onde o político amarra suas convicções, na esperança de que a população as pesque, ponha no isopor e as conserve até a próxima eleição.

Do mais, estas características energéticas emergem de endofenótipos, o que as torna particularmente poderosas para a produção de pistas sobre a direção das convicções. Parece complicado? Então considere que todo político é um sujeito às vésperas de te pedir um emprego e, com essa ideia na cabeça, leia os dois últimos parágrafos novamente. Viu como fica claro?

Para poder mapear tais características, decidimos construir uma plataforma de inteligência artificial que extrai os componentes não verbais dos discursos e classifica as emoções que correm nesta esfera por meio de uma análise "energética" (padrões das ondas sonoras, etc.). Para tanto foi usada uma rede neural com inúmeros parâmetros e várias otimizações.

Originalmente, treinamos o modelo para responder com eficiência em contexto discursivo. Longo processo. Com isto feito, pensamos em expandir seu escopo para podermos classificar músicas cantadas, gente irritada ao telefone e até balbucios de bebês, o que ainda está em andamento.

Abaixo compartilho resultados inéditos de um estudo de validação que conduzimos, cujo objetivo era responder à seguinte pergunta: do ponto de vista energético, como os líderes de diferentes países se dirigiram à sua população, ao longo dos meses de março e abril, para tratar da pandemia de covid-19?

Seguindo o que detalhei na última seção, a resposta a esta pergunta, aliada a uma pesquisa sobre o impacto destes discursos na população dos respectivos países, permite mapear a direção das convicções, coisa que, até este momento, não parecia tão viável.

Os discursos foram coletados de maneira padronizada, os áudios foram normalizados, as durações são relativamente similares, etc. Ainda assim, considere que os resultados podem não representar a palavra final no assunto – até porque o estudo foi conduzido para a testar o modelo. Pegue lá seu grão de sal e volte aqui para ver.

Foram analisados discursos de: 

  • Boris Johnson – Reino Unido
  • Jacinda Ardern – Nova Zelândia
  • Donald Trump – Estados Unidos
  • Jair Bolsonaro – Brasil

Resultados principais: 

O inglês tende a ser sóbrio, mas a ausência quase completa de emoções chama atenção e sugere falta de conexão de Boris Johnson com a situação em curso:

A Nova Zelândia, liderada por Jacinda Ardern, apresentava na ocasião bons resultados no combate ao coronavírus. Estes apareceram no tom predominantemente otimista (dimensão: felicidade) da primeira-ministra:

Donald Trump apresenta grau elevado de neutralidade, o que sugere pouca conexão com a situação. O baixo coeficiente otimismo/inflamado sugere negativismo:

Bolsonaro oscilou entre o otimismo (dimensão: felicidade) e a reatividade típica dos discursos inflamados:

Conclusões do estudo 

Ingleses são conhecidos por serem comedidos, mas Boris Johnson possivelmente passou do ponto no que se refere à frieza. Chama atenção a ausência de otimismo. Trump também apresenta pouco envolvimento (maior do que o de Johnson) e apresenta baixo nível de otimismo (medido pela relação otimismo/inflamado). Em contraste, na Nova Zelândia, o otimismo impera. Bolsonaro é o mais inflamado dos líderes e também aquele que mais oscila em seu tom.

Para fechar

Assistimos hoje em dia a uma profusão de ideias superficialmente equivocadas, apresentadas como novidade, usando o prefixo "neuro". Espero que tenha ficado claro que este artigo procura algo diverso. A ideia não é falar do papel do que é "neuro" nisso ou naquilo, mas partir dos sistemas de crença em si – e das convicções políticas em particular – em direção aos seus aspectos preditivos. O modelo conceitual resultante diz que endofenótipos intermediam a relação entre as razões própria para endossar crenças e seus aspectos não intencionais (fundamentalmente biológicos).

Mais especificamente, as convicções políticas individuais se ancoram em sistemas de crenças, que são facilitados por tendências biológicas, mas ganham mesmo seus contornos ao longo dos anos, na medida em que o indivíduo passa a acreditar que aquilo é o melhor que pode, ou a consequência natural de sua vida.
Estas convicções se engancham e desengancham em políticos específicos, através de um mecanismo psicológico conhecido por identificação projetiva, que basicamente traduz a ideia de que o indivíduo confronta a representação mental do político com sua maçaroca interior e avalia se encaixa ou não. Em caso positivo, ocorre endosso, em caso negativo, rechaço. É algo dinâmico, que é reativado por discursos sociais, contexto eleitoral e situações atípicas, como esta pandemia.

O julgamento que é realizado não é totalmente consciente e tão pouco toma apenas ou exclusivamente os aspectos conscientes da fala e comportamento do político para a geração de juízos de valor. Pelo contrário, ele se utiliza fortemente de aspectos energéticos, os quais são tacitamente assumidos como mais precisos para as avaliações que importam, as quais justamente dizem respeito ao acoplamento à maçaroca mental do indivíduo, em sua manifestação pontual, naquele momento.

Note que isto significa que rechaço a ideia de que aquilo que importa é mapear o "carisma" do político. Na realidade, estudos mostram que gente menos extrovertida rechaça líderes excessivamente extrovertidos – e a extroversão é um dos componentes mais importantes na constituição do carisma. O buraco é mais embaixo e passa pela relação entre crenças e convicções, razão pela qual desenvolvi o modelo conceitual que você acabou de conhecer. Em primeira mão.

Sobre o Autor

Álvaro Machado Dias é neurocientista cognitivo, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomadas de Decisão, editor associado da revista científica Frontiers in Neuroscience, membro da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge) e do MIT Tech Review Global Panel. Seus interesses intelectuais envolvem tomada de decisões de um ponto de vista cerebral, efeitos das novas tecnologias na compreensão do mundo, inteligência artificial, blockchain e o futuro da medicina. Contato: alvaromd@wemind.com.br

Sobre o Blog

Este blog trata de transformações de mentalidades, processos decisórios e formas de relacionamento humano, ditadas pela tecnologia. A ideia é discorrer sobre tendências que ainda não se popularizaram, mas que dão mostras de estarem neste caminho, com a intenção de revelar o que têm de mais esquisito, notável ou simplesmente interessante, de maneira acessível e contextualizada.