Visões do Futuro http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br Só mais um site uol blogosfera Sun, 02 Aug 2020 15:23:23 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Vacina no Brasil: quando tudo errado ameaça dar certo http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/08/02/vacina-no-brasil-quando-tudo-errado-ameaca-dar-certo/ http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/08/02/vacina-no-brasil-quando-tudo-errado-ameaca-dar-certo/#respond Sun, 02 Aug 2020 07:00:15 +0000 http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/?p=507

PixxlTeufel/Pixabay

Ao longo das décadas de 1950-1960, Jay Forrester desenvolveu uma metodologia para tentar modelar as interações dentro de sistemas dinâmicos, que fez história. Ele era professor da escola de negócios e administração do MIT e queria explicar porque algumas empresas prosperam, enquanto outras sucumbem. Na prática, fez muito mais.

A teoria dos sistemas dinâmicos ajuda a entender porque uma conjunção negativa de fatores às vezes leva a desfechos favoráveis. Sim, isto acontece, ainda que raramente. Um exemplo se deu com Elon Musk que em agosto de 2018 tuitou “estou considerando converter a Tesla novamente numa empresa privada a US$ 420. Pagamento assegurado”.

A SEC (espécie de CVM americana) achou que ele havia forçado a barra ao dizer que o pagamento estava assegurado, já que as ações estavam cotadas a US$ 281,70. Vale notar que a empresa foi listada na Nasdaq desde 2010 e, até a ocasião, nunca havia chegado perto de valer tanto – quem dera US$420/ação. Em consequência do blefe aparente, a SEC multou-o na física, assim como à empresa, em US$ 20 milhões cada.

Para mitigar a fúria dos acionistas, Musk se dispôs a comprar valor equivalente à multa, em ações da companhia (71.000 ações por US$ 20 milhões). Em 27 de julho deste ano, estas ações valiam US$ 1.420/cada (após uma queda de 15%); ou seja, enquanto buscava reduzir danos, Elon Musk lucrou cerca de US$ 60,8 milhões (US$ 1.138/ação, num total de US$ 80,8 milhões – US$ 20 milhões de multa). Ah, se todo desastre fosse assim.

O Brasil talvez esteja em rota relativamente semelhante, no que se refere ao controle da crise humanitária e econômica causada pela covid-19. É público e notório que o país despontou como um dos epicentros mundiais da pandemia, junto com os Estados Unidos.

Aqui, como lá, o mérito se liga à condução errática das políticas públicas, que minou a eficácia do isolamento social, sob a combinação de convicções pessoais, desejo de evitar elos identificatórios com o núcleo econômico da crise e compromissos com forças empresariais. Em paralelo, o alinhamento ideológico Bolso-Doria, de origem eleitoral, rompeu-se e ambos passaram a se opor em relação a quase todos os assuntos geradores de mídia, inclusive, vacinas.

Assim, no lado federal, o Brasil anunciou, em 27 de junho, um acordo de cooperação com a AstraZeneca/Oxford, que originalmente previa a aquisição de 30,4 milhões de doses (num segundo momento, Bolsonaro falou em 100 milhões de doses) da famosa “vacina de Oxford”, aliada à transferência de tecnologia necessária para a produção local subsequente, por US$ 127 milhões.

É como se cada dose importada saísse a cerca de R$ 23 – valor que deve cair, quando a produção nacional tiver início. O acordo ainda não foi assinado, havendo sempre o risco de não avançar, mas, se der certo, pode subsidiar campanhas de vacinação contra a COVID-19, a partir da virada do ano, conforme o UOL reportou.

Já o estado de São Paulo optou por um acordo específico com a chinesa Sinovac, que possui formato semelhante e que será operacionalizado pelo Instituto Butantan. A iniciativa custou R$ 85 milhões e prevê que 60 a 120 milhões de doses sejam enviadas ao país (há diferentes declarações públicas sobre isto), se a vacina for aprovada na fase III, a qual envolve testes em 6 estados brasileiros.

Independentemente desses números, o argumento central por trás do acordo paulista é de que a vacina da Sinovac baseia-se na inoculação do vírus inativo, técnica há décadas dominada pelo Butantan (clique aqui para saber mais).

Críticos das iniciativas estão dizendo que não são mais do que tiros no escuro, já que nenhuma das duas vacinas têm sucesso garantido. É esta ressalva que eu gostaria de discutir hoje, à luz do panorama mais amplo das dificuldades e oportunidades que acredito estarem em jogo.

Para começar, importa saber a chance de sucesso destas duas vacinas. Ninguém sabe, mas muita gente arrisca. Levantamento que fiz a partir de declarações de fontes independentes sugere que, em ambos os casos, a chance de sucesso esteja entre 50 e 80% (média 65%), o que significa que a chance de que ao menos uma das duas vacinas cumpra seu papel é de cerca de 88%.

Para além das probabilidades animadoras, é preciso ter em mente que reduzir o assunto à dicotomia sucesso/insucesso é completamente inadequado – e aqui não estou apelando para os seus sentimentos mais nobres e humanitários, mas apenas à razão. Por exemplo, você pagaria R$ 100 num bilhete de uma rifa que lhe conferisse apenas 1% de chance de ganhar? Para mim, a resposta é “depende”. Se a rifa pagasse R$ 100 milhões, eu pagaria com certeza. Você não?

A maneira correta de se avaliar o pay-off de investimentos de risco não se encerra na presença/ausência do mesmo (tampouco na sua magnitude) como sugerido por algumas autoridades médicas que andam falando sobre isto na mídia. Importa saber quem é maior: o produto do custo de aquisição pela chance projetada de sucesso ou o custo de postergar qualquer ação até o momento em que tenhamos mais subsídios para decidir. Se este último for superior ao produto dos dois primeiros, o risco comprado da AstraZeneca e/ou Sinovac terá se pagado. É simples assim.

Não se trata de modelagem trivial, mesmo desconsiderando os custos subjetivos diários, que irão se manifestar como sofrimento psíquico, conflitos interpessoais e traumas psicológicos associados à violência doméstica, cujo crescimento recente em parte se explica pelo fato de que maridos/companheiros desequilibrados estão passando mais tempo em casa (a porta da rua é a serventia da casa, queridos). Faltam dados sobre o quanto o lançamento de uma vacina contra a COVID-19 com, digamos, 80% de eficácia, nos pouparia por dia; tão pouco encontrei dados do tipo sobre qualquer outro país.

Por outro lado, vale notar que, nos Estados Unidos, o custo econômico projetado da covid-19 é de cerca de US$ 8 trilhões, enquanto o acordo federal feito com a Pfizer envolve o pagamento de US$ 1,95 bilhão por 100 milhões de doses (cerca de R$100,00/dose). Outras 100 milhões de doses foram adquiridas da Sanofi e GlaxoSmithKline, por US$2,1 bilhões (cerca de R$107,00/dose). Já a Moderna, cuja vacina foi alavancada por US$483 milhões, no contexto da Operação Warp Speed, anunciou que irá cobrar US$50-60/dose, nos Estados Unidos.

Ainda que os dois países tenham realidades econômicas muito diversas, os dados reforçam a máxima de que o impacto diário da ausência completa de imunidade populacional é enorme e de que estamos pagando uma pechincha pelas vacinas. Assim, ao que tudo indica, o pay-off da aquisição combinada dos riscos AstraZeneca/Sinovac é tanto superior ao de se esperar para decidir depois, quanto ao de se apostar em apenas um deles.

O desacordo somou – ou melhor, pode somar, desde que não seja engolfado por visões distorcidas sobre as vacinas – o que se torna mais claro quando consideramos que existe a chance de que seja importante contar com mais de um tipo de vacina “suficientemente eficaz para merecer distribuição em larga escala, conforme  a vice-presidente da Merck, Julie Gerberding, assinalou em audiência recente do congresso americano, sobretudo, porque “a primeira vacina pode não ser a melhor para idosos ou crianças”.

A dupla aquisição de doses e tecnologias não é o único “seguro” possuído. Na verdade, o mais poderoso deles é a participação no consórcio Covax (Vaccines Global Access), uma iniciativa da OMS e outras organizações internacionais, como a Fundação Bill e Melinda Gates, para garantir o acesso global a um pool de vacinas (em torno de doze). O consórcio tanto deve ajudar na democratização da vacinação, quanto deve mitigar o impacto global do insucesso de algumas opções.

Porém, as doses oriundas do consórcio, pelas quais deveremos pagar, devem chegar depois daquelas derivadas da expansão dos ensaios clínicos de larga escala, que estão sendo feitos no país. E neste caso, estamos trabalhando com as chamadas decisões intertemporais, aquelas para as quais o tempo conta.

Mas, afinal, por que outros países não seguem o nosso exemplo, abrindo as portas para as empresas produtoras das vacinas em estágio mais avançado fazerem seus testes de fase III, em troca de melhores condições negociais? Pela simples razão de que essa oferta não está na mesa para todo mundo.

Não é que estejamos isolados nessa situação (por exemplo, o Reino Unido conta com um braço do ensaio clínico da vacina da AstraZeneca maior do que o nosso, enquanto nos Estados Unidos, a Moderna iniciou a fase III do teste de sua vacina, com 30 mil sujeitos, sob a premissa de que este sirva de esteira para facilitar a vacinação em massa subsequente); mas, de fato, o Brasil está em posição privilegiada no que se refere ao acesso precoce às vacinas em estágio de desenvolvimento avançado, sobretudo se considerado que ainda não contamos com uma versão local, neste estágio.

Corroborando este ponto, a Pfzier também incluiu o Brasil nos seus testes clínicos de fase III, os quais devem acontecer nas cidades de São Paulo e Salvador, durante o mês de agosto, enquanto o Paraná irá sediar testes clínicos de fase III da vacina da Sinopharm, conforme o UOL reportou.

A razão para tanto é simples e trágica: a taxa elevada de disseminação da doença nos coloca na zona de interesse dos fabricantes. Sobre este pano de fundo, um histórico de desenvolvimento de vacinas para doenças tropicais de baixo interesse para os grandes laboratórios internacionais criou as condições para operacionalizar a parte mais crítica dos dois acordos: a produção nacional subsequente. Acho que merece um tuíte, com um daqueles coraçõezinhos bem bregas – mas sinceros – para os incansáveis cientistas brasileiros que consolidaram esta expertise e que serão imprescindíveis para que saiamos deste abismo.

Engin Akyurt/ Unsplash

Não se iluda achando que a vacina é a linha de chegada

O pensamento reconfortante da pandemia é o de que o lançamento da vacina irá funcionar como uma espécie de linha de chegada para tudo o que tem a ver com COVID-19, exceto a crise econômica, que qualquer pessoa em sã consciência entende que vai se estender por anos. Melhor não se iludir.

Por mais que a tese apresentada na seção anterior seja correta e a gente de fato esteja prestes a assistir nossas falhas serem convertidas em facilitação, é preciso considerar um ponto que está sendo menos discutido – e, de acordo com fontes especializadas da indústria que consultei, planejado – do que deveria: a logística de encapsulamento, armazenamento e distribuição ampla das vacinas.

Existe um gargalo global na produção de frascos capazes de encapsular adequadamente a vacina que imuniza contra a COVID-19. O vidro destes frascos é produzido a partir de um tipo de areia de baixa disponibilidade, que ajuda a manter a temperatura interna – essencial para a preservação de sua eficácia – e, como não poderia deixar de ser, está cada vez mais difícil e caro adquirir esta matéria-prima (para entender mais sobre estes frascos e o gargalo de produção, acesse aqui).

Há alternativas em teste, mas nada que prometa suprir a demanda de curto prazo. Uma consequência possível disto – ainda que não provável – é o surgimento de gargalos capazes de atrasar o envasamento da produção nacional.

Na esfera do armazenamento, vacinas precisam ser mantidas em refrigeradores especializados até o momento da aplicação. Ao passo que isso não promete ser um problema grave em boa parte do país, é esperado que crie uma situação complexa e altamente dependente de boa vontade política, em regiões remotas, fortemente afetadas pela COVID-19.

Por exemplo, houve uma explosão de casos entre índios do Pará e povos isolados da floresta, em toda a região norte do país (vale notar que a desassistência indígena frente à doença chegou ao STF). São territórios gigantes, que se espalham sob o sol amazônico e que não contam com estradas adequadas e, em muitos casos, com redes elétricas estáveis, ou sequer existentes.

Do mais, uma visão clara do desafio que virá precisa levar em conta que as vacinas disponíveis demandarão duas doses (ao que parece, intervaladas em um mês) para a imunização, que por sua vez deve durar entre meses e alguns poucos anos, o que é bem diferente da tão sonhada imunização esterilizante (permanente). Pascal Seriot, CEO da AstraZeneca, recentemente declarou que a imunização da vacina que a sua empresa está desenvolvendo pode durar entre 12 e 18 meses, ainda que “a verdade seja que a gente não sabe”.

Outro ponto delicado é relativo ao resultado clínico esperado. A vacinação adequada vai garantir que ninguém mais carregue o vírus e possa transmitir a doença, certo? Ainda não se sabe, mas é razoável considerar que isto pode estar errado, dado que as primeiras versões da vacina deverão gerar cobertura incompleta.

As razões para tanto são várias – e o assunto como um todo permanece sob uma aura fortemente especulativa -, mas um argumento frequentemente relacionado à hipótese de cobertura incompleta diz que o vírus ataca primariamente o sistema respiratório, sobretudo através da mucosa do nariz e da boca, ao passo que as primeiras vacinas têm/terão aplicação intramuscular, a qual tende a não ser ideal.

Esta relação entre cobertura incompleta e permanência do vírus no sistema respiratório (no caso, nas chamadas vias respiratórias superiores) é esclarecida em artigo publicado na revista Nature, onde se lê:

“A resposta sistêmica à vacina da Moderna (nota: o que pode se aplicar às suas concorrentes), tende a não produzir imunidade nas mucosas. Mesmo que a vacina confira proteção contra infecções do trato respiratório inferior, as pessoas tenderão a continuar vulneráveis a formas subclínicas, mas potencialmente contagiosas, de infecção da mucosa nasal”.

No lado das vacinas baseadas na inativação o vírus, no nosso contexto representadas pela da Sinovac, é preciso considerar a possibilidade de um fenômeno raro, chamado incremento dependente de anticorpos (conhecido como ADE, nos meios especializados), o qual se caracteriza pela potencialização do vírus no organismo de quem recebe a aplicação. Este fenômeno foi recentemente observado em uma pequena subamostra de macacos que, após receberem uma outra vacina experimental para COVID-19, baseada em inativação virótica, desenvolveram síndrome respiratória aguda. Definitivamente, não há motivos para alarmismo, até porque ensaios clínicos da vacina da Sinovac revelam que a mesma não produziu efeitos do tipo em modelos animais; mas vale tomar esta hipótese longíqua como lembrete de que o jogo não estará ganho quando a vacinação em larga escala começar.

Há ainda a questão de que, para a vacinação fluir, é preciso que existam máscaras, luvas, alcool e outros equipamentos de proteção individual (EPIs) em abundância. Mas não é exatamente isso o que falta, nos hospitais públicos desassistidos, incluindo alguns nas periferias das grandes capitais? Cadê os estimadores (modelos matemáticos associados à provisão de recursos) de EPIs para a distribuição massiva das vacinas? Sem isso, não tem vacinação que se sustente.

A perspectiva de que os gargalos logísticos são tão ou mais desafiadores do que a aquisição das doses, somada à de que esta primeira geração de vacinas pode se mostrar incapaz de erradicar o Sars-CoV-2, reforça a ideia de que a conjuntura potencialmente vantajosa que vai se formando pode andar para trás rapidamente, fazendo com que tenhamos sucessivos surtos da doença, ao longo dos próximos anos.

Aqui, nada me parece ter importância maior do que a determinação de uma heurística (regra que não cabe numa fórmula só) socialmente responsável para a distribuição dos lotes de vacinas disponíveis.

O braço brasileiro do ensaio clínico da Sinovac (fase III, que deve encerrar em setembro) tem uma regra muito boa, posto que eficiente e responsável, para a distribuição das 18.000 doses oferecidas (para 9.000 sujeitos): prioridade para o corpo clínico na linha de frente do enfrentamento à pandemia. Em caso de aprovação da vacina nestes testes, as 60-120 milhões de doses que devem chegar aqui deverão priorizar idosos e outros participantes de grupos de risco, conforme declarou Dimas Covas, diretor do Instituto Butantã. Parece fazer sentido, assim como parece ser uma lógica suficientemente simples e exaustiva para poder nortear as políticas federais. Doce ilusão.

Na hora do vamos ver, o que vai contar mesmo é se serão idosos das favelas ou gente que tem muito mais condições de seguir isolado em casa por mais um tempinho; se os postos de vacinação vão se concentrar onde existe estrutura (leia-se: nos bairros ricos das cidades de melhor IDH), ou onde o atendimento se mostra mais necessário. Difícil ser otimista e achar que o problema se esgota na existência de uma vacina, quando estas questões relativas à realidade da vacinação num país altamente desigual batem à porta.

Na minha visão, este é o núcleo de preocupações mais importante para que o tão sonhado novo normal (sim, pior expressão do período) não seja simplesmente uma continuação de tudo o que vimos até aqui.

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Três ideias originais sobre tecnologia para a sua semana http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/07/12/tres-ideias-originais-sobre-tecnologia-para-a-sua-semana/ http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/07/12/tres-ideias-originais-sobre-tecnologia-para-a-sua-semana/#respond Sun, 12 Jul 2020 07:00:59 +0000 http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/?p=496 Escrevo com o objetivo de cobrir temas da área de tecnologia – no fundo, (neuro)ciência e tecnologia – que tenham interesse filosófico ou social mais amplo. Em geral, desenvolvo séries de quatro ensaios, as quais me tomam dois meses, além de mais um, em que reviso o campo. Esta dinâmica me dá muita satisfação e, arrisco dizer, vai ao encontro das aspirações de um perfil de leitor de textos mais longos e conectados entre si, que o UOL vem amealhando cada vez mais.

O comprometimento com as séries temáticas –bases cognitivas da inteligência artificial, o papel da tecnologia na arte contemporânea, o futuro das tecnologias médicas, a ideologia da 4a. revolução industrial, crônicas da pandemia e outras – muitas vezes me deixa com aquela sensação de quem não foi à festa porque preferiu ficar focado até tarde. É o famoso FOMO (feeling of missing out), que surge no palco da consciência a cada insight que vejo nascer –e deixo morrer — em prol da manutenção de uma linha sistemática de produção.

Porém hoje vou fazer diferente. Vou compartilhar com vocês três ideias que tive sobre tecnologia, nestes últimos dias. O critério de seleção é simples: cada uma me parece merecedora de um artigo só seu, explicando como tudo o que está em jogo de fato funciona. Quem sabe um dia…

Tubarões arrazoados

A coisa mais importante que está rolando na área de tecnologia no país neste momento é a liberação de pagamentos pelo WhatsApp. Ao passo que desagrada aos bancos que não atendem por BB, Sicredi ou Nubank, o sistema é magnificamente confortável para o consumidor final, que pode se livrar de um hardware que demanda manutenção constante (o plástico do cartão, sempre sujeito a perdas e danos), além de poder mandar dinheiro para os outros, sem as variadas limitações dos TEDs e DOCs. Neste sentido, a ideia é tão atraente quanto a de abolir a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança.

Vejam, a maior parte dos trajetos que fazemos são curtos e apresentam baixíssimo risco. Por que raios usar cinto de segurança, não é? Esta é a sensação que todos temos quando o sensor apita, no estacionamento do shopping. Acontece que a obrigatoriedade do uso do cinto não está lá porque o mesmo seja essencial nestas horas, mas porque é preciso que exista um condicionamento para que a maioria das pessoas o utilize em todas as outras ocasiões. O que salva vidas.

Pagamentos por WhatsApp tendem a ter MDR (merchant discout rate – a taxa cobrada do vendedor) mais alto do que as maquinhas (até 100% maior). É claro que têm horas em que vale a pena pagar uma merreca a mais pelo conforto. Acontece que a liberação do mesmo tenderá a funcionar como a abolição da obrigatoriedade do cinto de segurança: as pessoas vão simplesmente se esquecer deste detalhe.

A principal consequência será que os vendedores terão que subir o preço de seus produtos para acomodar o lucro do Facebook e parceiros na operação (sendo que o Facebook vem sendo ampla e justamente considerado uma das empresas mais nefastas do mundo atual), dando desconto para quem decidir pagar de outra forma.

Este modelo de pagamento por app não é novidade no mundo. Tanto pelo contrário, o WhatsApp está tentando correr atrás do WeChat, expoente do modelo super-app, conforme expliquei neste artigo, sobre arranjos de pagamento e blockchain.

Na China, o super-app – aplicação que serve para finalidades sociais, comerciais e de telecom – gerou um ecossistema próprio, em que a digitalização financeira é a base. Esta por sua vez mudou a mentalidade dos chineses em relação à importância da bancarização digital, assim como jogou fortemente contra o uso do papel moeda no país.

Essa é a parte óbvia, a qual nos serve de pano de fundo. A não óbvia é a seguinte: este arranjo foi crítico para a implantação do primeiro grande projeto de moeda digital nacional (CBDC). Somando-se a bancarização do WhatsApp com o Pix, sistema de pagamentos do BC, que promete transações imediatas, 24/7, a partir de novembro, chegaremos a um cenário ideal para a digitalização do Real.

À semelhança do pagamento por WhatsApp e desobrigação do uso do cinto de segurança, CBDCs trazem vantagens imediatamente perceptíveis para boa parte da população. Porém, tornam a vida de quem está excluído do universo digital (classe D, idosos e outros) muito mais difícil, aumentando a desigualdade. Em paralelo, criam oportunidades para perseguições econômicas e concorrência desleal no sistema financeiro.

O sucesso do projeto do WhatsApp deverá reduzir o incentivo para a população brasileira utilizar papel-moeda, bem como forçar a bancarização digital das classes C e D. Se de fato o Pix sair, estarão criadas as condições para a implementação do Real digital – ou, como faria mais sentido em outro contexto político – de uma moeda digital do Mercosul.

Um olé tupiniquim no FBI

Em 12 de março, o UOL publicou o artigo intitulado “Como a Lava Jato escondeu do governo federal visita do FBI e procuradores americanos”, em parceria com a Agência Pública e o The Intercept Brasil. Ali, narrava-se o fato de que, em 10/2015, a força-tarefa da Lava Java do Paraná havia recebido a visita de uma delegação composta por procuradores americanos e membros do FBI, entre outros, a qual não seguiu os ritos tradicionais para este tipo de relação, a saber, um pedido formal de colaboração (MLAT), que deve estar centralizado no Ministério da Justiça brasileiro.

Em 1/07/2020, a Agência Pública e o The Intercept Brasil publicaram o artigo “O FBI e a Lava-Jato” que, entre outras coisas, lançou luz sobre a colaboração brasileira com o FBI para quebrar a criptografia do sistema My Web Day, do famoso setor de operações estruturadas da Odebrecht, que usava a metodologia True Crypt para proteger os dados.

Segundo a Agência Pública:

Procurada pela reportagem, a Lava Jato afirmou, através de nota, que “os dados do sistema Drousys, entregues ao MPF no bojo do acordo de leniência firmado pelo Grupo Odebrecht, já foram objeto de perícia submetida à avaliação do Poder Judiciário brasileiro e auxiliaram no fornecimento de provas a diversas investigações e acusações criminais”. A resposta completa está no final da reportagem. Porém, apenas em agosto de 2017 cinco discos rígidos com cópia de dados do software My Web Day foram entregues oficialmente aos procuradores da Lava Jato como parte do acordo, segundo reportagem de O Globo. Os arquivos para descriptografá-los continuavam desaparecidos – e mais uma vez a Lava Jato precisou da ajuda dos americanos.

 O texto não diz que o FBI tenha acessado os arquivos, mas é isso o que muita gente entendeu por conta própria. Em consonância com esta possibilidade, uma pesquisa sobre o tema aponta que (1) o TrueCrypt, que é Open Source, foi descontinuado em 2014; (2) os próprios desenvolvedores aconselharam seus usuários a deixar de utilizá-lo; (3) algumas vulnerabilidades estavam descritas na internet já em 2015; (4) O site do TrueCrypt apresentava a seguinte mensagem, à época:

“The development of TrueCrypt was ended in 5/2014 after Microsoft terminated support of Windows XP. Windows 8/7/Vista and later offer integrated support for encrypted disks and virtual disk images. Such integrated systems are also available on other platforms (click here for more information). You should migrate any data encrypted by TrueCrypt to encrypted disks or virtual disk images supported on your platform,”

(5) Pierluigi Paganini, conhecido hacker e especialista em segurança, disse: “The popular security expert James Forshaw has discovered two critical flaws in the driver that TrueCrypt installs on Windows systems”.

(6) Em 2014, o FBI acessou a participação criptografada de Christopher Glenn, que havia copiado planos militares americanos e os protegido usando TrueCrypt. Pegou dez anos de cadeia por isso. Foi na sequência deste evento que o TrueCrypt foi descontinuado. Será que o encerramento repentino ocorreu porque o FBI teve acesso ao algoritmo criptográfico, tornando-o vulnerável deste momento em diante? É o que muitos se perguntam até hoje.

Desta vez, o pano de fundo tem clima de série: a tal ajuda dos americanos deu certo, o FBI acessou os arquivos da Odebrecht na marra, mas isso nunca foi revelado. Certo? Humm, na minha opinião, errado.

Vou deixar a parte retórica de lado e focar dois pontos simples. O primeiro é prático. Meia década antes do evento Odebrecht, o FBI passou um ano tentando quebrar a criptografia dos discos rígidos do computador de Daniel Dantas, no contexto da Operação Satiagraha, sem sucesso. Entenda a operação, incluindo parte das muitas coisas que deram errado na mesma.

Em 2012, o FBI tentou quebrar a criptografia de arquivos relacionados aos famosos Panamá Papers e também deu com os burros n’água. Vale notar que, neste caso, o algoritmo não era o TrueCrypt, mas seu sucessor, conhecido como Vera Crypt; porém, eles são bastante parecidos. Já no ano seguinte, foi a vez de David Miranda ter  arquivos sensíveis, protegidos com TrueCrypt, inspecionados pelo FBI. O resultado? Sem B.O.

Mas, afinal, e o caso Christopher Glenn? Durante o julgamento ele se declarou culpado; é bem possível – provável, arrisco dizer – que tenha dado acesso aos discos, enquanto negociava sua sentença.

O segundo ponto é técnico. O True Crypt utiliza um padrão criptográfico conhecido como AES 256 bits, que é tão resistente que nem os computadores quânticos do futuro poderão quebrá-lo. Aliás, quando você ler que os computadores quânticos vão ser capazes de quebrar toda a criptografia existente, etc., ignore. É bobagem. Na realidade, existem dois tipos básicos de criptografia: assimétrica e simétrica. Esta última não está sob qualquer ameaça, apesar de ser mais simples, em certo sentido.

Tudo isso leva a crer que a capacidade de quebrar na marra as senhas criadas com ferramentas Open Source, como o True Crypt/Vera Crypt, as quais estão disponíveis para qualquer um, está acima da capacidade do FBI, NSA e de qualquer outro que queira se aventurar por este terreno. Isto decorre da inexistência de qualquer método  “cripto-analítico” páreo para o AES 256, o que de fato é surpreendente, dado que o mesmo é quase tão velho quanto a World Wide Web (1997 vs. 1989). O que existem são métodos para se tentar chegar às chaves armazenadas na memória da própria máquina e para se explorar outras tantas vulnerabilidades e deslizes.

Ingenuidade minha, que desconheço os laboratórios ultra-high-tech da inteligência americana? Então que se prove o contrário, começando pelos arquivos de Dantas!

Reflexões sobre a universalização de Jesus (por: ateu bem-intencionado)

O Black Lives Matter movimentou o novo normal como se este fosse aquele de antigamente: gente na rua, gritos de guerra e muita, muita gente presa. Os resultados estão pipocando por todos os lados. Uma parte é diretamente relacionada à atuação da polícia, assunto sobre o qual escrevi aqui. Outra é bem mais genérica e inclui, entre outras frentes, a derrubada de estátuas de gente que contribuiu para o Apartheid-soft (e hard) que chega aos dias atuais.

Nesta linha, parece chegada a hora de enfrentar uma questão fundamental: o Jesus loiro que as famílias de todas as cores fixam na parede – um homem branco de Oxford, como bem definiu o comediante inglês Eddie Izzard.

Antes que alguém assuma que se trata de um mecanismo moderno de dominação, lembremos que o Jesus de Oxford é uma releitura renascentista (vide “A última ceia” de Leonardo da Vinci) de pinturas e outras formas de representação que já tinham lhe embranquecido um tanto. Também é verdade que diferentes perfis de Jesus se tornaram canônicos ao longo da história, em diferentes partes do mundo. Vale a pena acessar este artigo da National Geographic e conhecer as principais versões. Algumas são muito interessantes.

Feitas estas ressalvas, é de se considerar que o Jesus de Oxford, associado a uma representação eurocêntrica de Deus, teve papel importante na colonização africana; aliás, até hoje, imagens do tipo seguem espalhadas pelo continente, como destaca Willem Oliver, da Universidade da África do Sul. Seja lá, aqui ou na Ásia, parece-me claro que o mundo só tem a ganhar revisitando esta questão. Vejamos, a premissa subjacente à representação religiosa de Jesus é de que personifique pureza de espírito, bondade e retidão, de modo que, a partir da identificação projetiva, catalise sentimentos de confiança, solidariedade e compaixão.

12Uma das consequências da eficácia da primeira associação é a maior confiança intrínseca em homens de pele e olhos claros. Este efeito foi confirmado na última pesquisa conduzida pelo Instituto Locomotiva, que mapeou percepções implícitas e explícitas sobre cor e outros atributos, numa grande amostra nacional – e o que vale para o Brasil, onde os brancos de olhos claros são minoria, vale para a maior parte do mundo.

A maneira mais simples e direta de abordar a questão é por meio da antropologia forense, capaz recriar a provável imagem do Jesus verdadeiro (assumindo que tenha existido, assunto que aqui não está em discussão). Não se trata de tarefa fácil, uma vez que não há vestígios do corpo, esqueleto ou DNA. Porém, como Mike Filley gosta de lembrar: “de acordo com o evangelho de Mateus, quando Jesus foi preso no jardim de Getsemani, antes da sua crucificação, Judas Iscariotes teve que indicar para os soldados quem era Jesus, uma vez que eles não conseguiam diferenciá-lo de seus discípulos”.

Com base na premissa de que sua aparência era comum, um projeto de antropologia forense e arte, recriou o perfil do filho de Deus, em 2015. O resultado pode ser encontrado aqui. Pensar neste perfil à luz dos protestos anti-racistas atuais conduz à máxima de que a “imagem pública de Jesus” precisa ser completamente redefinida. O impacto desta revisão não pode ser subestimado. Ao que tudo indica, Jesus não era branco e, como tantos outros, acabou assassinado por sua oposição aos poderosos.

Este é o pano de fundo, o básico. Para além dele, a questão que se coloca é que a relação que os cristãos estabelecem com Jesus vai muito além da iconografia. Reduzir esta discussão, que no meu entendimento é absolutamente importante, ao naturalismo da reconstrução forense é matar a chance de algo muito mais interessante, imaginativo e rico de sentidos – essa é a reflexão que gostaria de compartilhar.

No meu entendimento, o melhor caminho para a redefinição da imagem de Jesus não se reduz à antropologia forense, mas passa pelo uso de técnicas combinatórias de imagens, baseadas em inteligência artificial, para fundir todos os registros faciais masculinos do mundo (que pena que tenha que ser assim) em um só. Este sim seria a representação de Jesus: sempre mutável, evoluindo junto com a humanidade, irmanada em sua multiplicidade – afinal, este era o espírito da coisa, não é?

Para fazer isso seria necessário partir de um percalço: a combinação irrefletida de todos os registros disponíveis nos bancos de imagens privados (onde estão as imagens que podem ser compradas) levaria a vieses amostrais parecidos com estes que tornam os algoritmos preconceituosos. Em segundo lugar, estas imagens são inautênticas. Melhor seria começar um projeto global de novas coletas, o que poderia trazer outros tantos desafios de privacidade.

Finalmente, há o problema mais sério de que isso iria mais uma vez obliterar a representação das verdadeiras origens étnicas de Jesus, em prol de alguma coisa que, por definição, não existe. Para acomodar as ressalvas que este último traz, penso que o ideal seria ancorar (leia-se: atribuir grande peso amostral) à imagem recriada pelos antropólogos forenses em 2015. Preservado este ponto, seria importante incorporar imagens de pessoas de todos os povos do mundo, em taxas iguais, independentemente do seu tamanho ou do número total de imagens disponíveis. Muita gente iria torcer o nariz, mas, no mínimo, teríamos algo novo – e completamente desconectado do discurso empobrecedor do novo normal: o primeiro projeto religioso divertido do milênio.

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Tecnologias policiais no contexto brasileiro http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/06/25/tecnologias-policiais-brasileiras-seguem-pela-trilha-rechacada-la-fora/ http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/06/25/tecnologias-policiais-brasileiras-seguem-pela-trilha-rechacada-la-fora/#respond Thu, 25 Jun 2020 07:00:12 +0000 http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/?p=474

Crédito: Edgar Su/Reuters

Em meu último artigo apresentei a hipótese de que os protestos que seguiram à morte de George Floyd (25/05/2020), nos Estados Unidos e Europa, podem levar à aceleração da substituição do policiamento humano por tecnologias digitais.

Ainda que isto contraste com o afastamento momentâneo do trio IBM, Amazon e Microsoft da venda de algoritmos de reconhecimento facial para a polícia, a situação mais ampla é de desconfiança crescente em relação à atuação da mesma – e esta é a senha para o avanço da tecnologia sobre a área.

É importante ter em vista que as três são grandes doadoras de dinheiro e tecnologia para o combate ao crime nos Estados Unidos e que seus altos executivos costumam investir as horas que lhes faltam em conselhos municipais e estaduais de segurança, de diferentes regiões do país. Por fim, conforme assinalou Kashmir Hills para o New York Times de 24/06, “o gesto destas empresas foi basicamente simbólico, já que não são grandes players nesta indústria. As tecnologias que os departamentos policiais usam são fornecidas por empresas menos conhecidas do público como Vigilant Solutions, Cognitec, NEC, Rank One Computing e Clearview AI”.

Já no Brasil, a situação é bastante diferente, principalmente pelo fato de que a criminalidade é epidêmica. Isto tende a levar à aceitação apática de todo tipo de aparato tecnológico que prometa reduzi-la, sob a lógica de que se é menos ruim, está bom. Dá para entender quem pensa assim, mas fato é que são das concessões feitas na batalha contra o mal maior que costumam ser feitas as prisões dos que se julgam livres. Pensando nisso, escrevi este artigo em que reviso as ferramentas tecnológicas de combate não violento à criminalidade que estão mais em evidência e que são, ou quase foram, adotadas no Brasil.

Antes de começarmos, é importante ter em mente que algumas das principais tecnologias policiais em uso no Brasil, não se enquadram na categoria “mais em evidência”. Isto porque elas tendem a ter uso exclusivamente interno, além de serem complicadas ou tediosas para quem não é da área.

O Centro de Operações da PMSP (COPOM), por exemplo, possui uma sala de comando com diferentes sistemas dotados de inteligência artificial (aprendizado de máquina) para otimizar deslocamentos, melhorar a comunicação e prever o local de novas ocorrências, nos moldes preconizados pela metodologia CompStat, famosa nos Estados Unidos. Uma plataforma importante ali é o Sistema Detecta, que produz mapas de crimes usando dados de diversas centrais, biometria e outras fontes.

Já o Sistema Ômega é uma plataforma de inteligência de dados da polícia civil do mesmo estado, que serve à produção de insights investigativos, a partir da integração de tipos diversos de informação sobre suspeitos. O integrador de terminais móveis de dados (TMD) da PMSP possui uma estrutura computacionalmente sofisticada, que permite a realização e consulta de ocorrências pelo celular ou tablet. E assim por diante.

Tudo isso vai ficar para depois para podermos olhar para as tecnologias que estão fazendo mais barulho.

Filmadoras de rua

Câmeras de segurança tradicionais registram o que está ocorrendo nas áreas ao seu alcance e enviam esses dados para uma central de monitoramento onde, cada vez mais, quem assiste primeiro é um algoritmo, que pode ser do Sistema Detecta ou de outro sistema interno.

Uma maneira de ampliar este uso é dada pela disponibilização das gravações por streaming para quem quiser ver, tal como feito pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego do Município de São Paulo), que permite o acesso a várias câmeras em tempo real. Há também projetos mais ousados, como o “City Cameras”, da prefeitura de São Paulo. Além de propor a instalação de 10 mil câmeras pela cidade e criar uma estrutura de compartilhamento de informações entre diversos órgãos de segurança, o projeto incorpora câmeras de casas e empresas interessadas em participar, ampliando sua área de cobertura. As câmeras públicas podem ser acessadas aqui. Vale notar que o número de câmeras atualmente presentes é baixo.

Câmeras nas viaturas

A tendência a usar câmeras nas viaturas policiais, no para-choque dianteiro e dentro do carro, teve início há mais de 30 anos, para gerar provas contra quem está cometendo crimes e transparência em relação à atuação da polícia, especialmente quando combinadas com a localização das viaturas por GPS.

Nos modelos antigos, as imagens eram de baixa qualidade (VGA) e ficavam restritas a pequenas caixas pretas, à semelhança dos aviões. Porém, o barateamento da tecnologia tornou comum as câmeras de viaturas que gravam em Full HD e que possuem um recurso chamado High Dynamic Range (HDR), que permite interpretar as situações mais caóticas. A transmissão por streaming igualmente se popularizou.

Estudo famoso da Associação Internacional dos Chefes de Polícia (IACP) apontou que câmeras nas viaturas melhoram muito o profissionalismo da polícia e a confiança dos cidadãos. Em paralelo, elas vêm cumprindo função básica no treinamento policial; por exemplo, a combinação de dados de GPS, velocidade de condução e registro em vídeo permite a conversão de perseguições que deram errado em material de estudo.

Em setembro do ano passado, o deputado Emerson Miguel Petriv encabeçou um projeto de lei (4223/19) preconizando que todos os carros das polícias civil e militar fossem equipados câmeras e GPS; em novembro o projeto foi arquivado pela Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, com parecer da deputada Fabiana Silva Poubel. Segundo ela, as câmeras são caras e só serviriam à coação dos policiais (conheça seus argumentos em detalhes).

Câmeras individuais

Câmeras individuais têm o tamanho de aparelhos celulares pequenos, vão presas às fardas e fazem registros multimídia. As mais modernos conseguem filmar mais de 12 horas seguidas, antes de descarregarem. Há variações de procedimento, mas, no geral, a ideia é que permaneçam ligadas durante todo ou quase todo o expediente, permitindo melhor coleta de provas e transparência nas ações de cada policial. Elas possuem apoio massivo, ao redor do mundo, independentemente de sexo e renda. Nos Estados Unidos, por exemplo, quase 90% das pessoas apoiavam seu uso, antes mesmo dos protestos de maio. Policiais, por sua vez, muitas vezes as rejeitam, já que se sentem tutelados. Queixas de que as câmeras são deliberadamente desligadas, ou cobertas com fita adesiva, não provocam mais surpresas.

Finalmente, há questões mais sutis. Por exemplo: seria correto permitir que os cidadãos filmados possam assistir à gravação? Se sim, isto deve se aplicar a suspeitos, ainda sem condenação? E policiais na eminência de reportarem confrontos violentos? Ao passo que uma pesquisa empírica de 2016 mostrou que a adoção das câmeras individuais reduz fortemente as queixas contra a polícia e a criminalidade, uma revisão de publicações mais recente sugeriu um quadro menos animador. De acordo com os autores, o impacto das câmeras individuais é intimamente dependente de práticas “menos consensuais”, como o acesso dos cidadãos aos registros em que aparecem e a limitação deste acesso a policiais envolvidos em confrontos violentos.

O uso destas câmeras avança no Brasil, ainda que se dê de maneira tímida. Dois estados de destaque são Santa Catarina e São Paulo. Em julho do ano passado, a polícia militar do primeiro adquiriu 2425 câmeras individuais, para serem distribuídas em diferentes cidades. Aqui você vê um exemplo de uso, em São Bento do Sul.

Em São Paulo, o processo de adoção começou alguns meses antes, mas permanece tímido, longe de atingir todo o efetivo da policia militar, que ultrapassa 80 mil policiais e bombeiros. De acordo com reportagem da Folha de S. Paulo, no começo do ano passado foram adquiridas as primeiras mil câmeras, as quais foram destinadas a seis batalhões.

Um ponto de atenção é que os cidadãos não têm como acessar as gravações em que aparecem, sem mandado judicial, o que limita seu papel de controle. No mais, como lembrou Fernanda Mena, em artigo esclarecedor sobre o tema, “se as câmeras parecem capazes de prevenir ações abusivas, o mesmo não se pode dizer em relação à punição de violência letal ilegal praticada por forças policiais. Esses casos são investigados dentro da corporação, por Corregedorias sem independência institucional, o que traz conflito de interesses”.

Algoritmos de reconhecimento facial e outros

Os registros feitos pelas diferentes câmeras podem servir para a identificação de pessoas, placas de carro e tudo o mais que for de interesse. Em geral, os softwares responsáveis por isso trabalham em duas etapas: detecção (“aqui há uma face humana”) e reconhecimento (“aqui está fulano de tal”). Uma vez que as câmeras estejam em espaços em que as pessoas circulam livremente, os softwares tenderão a processar registros de quem não deu permissão explícita para tanto. Isto está na base da controvérsia que geram.

Engana-se, porém, quem considera que o problema tem apenas a ver com direito de imagem. Este, de fato, é crítico para a liberdade de expressão; por exemplo, nos protestos mencionados acima, a polícia americana usou reconhecimento facial para a produção de provas contra os manifestantes.

Acontece que estes algoritmos tendem a chegar ao mercado contaminados por vieses raciais, que vão sendo fortalecidos pelo uso, criando uma bola de neve de racismo tecnológico. Eles tendem a errar mais na identificação de negros, mulheres e pessoas mais velhas, produzindo um número alarmante de falsos positivos, conforme o próprio governo americano reconhece. Foi isso o que aconteceu com Robert Julian-Borchak Williams, preso injustamente após um erro do sistema de reconhecimento facial, que passou batido pelos investigadores envolvidos no caso, no longínquo ano de 2020, quando a tecnologia ainda não estava madura, conforme reportado pelo New York Times, em dia 24/06/2020. Aí, a questão deixa de se reduzir ao custo/benefício de se trocar privacidade por segurança e passa a ser sobre o custo/benefício de se aumentar o desequilíbrio de uma balança tradicionalmente descompensada, assim podendo destruir vidas inocentes.

Pelo menos 37 cidades brasileiras têm sistemas de reconhecimento facial. Em um deles, instalado no Rio, quando o sistema identifica um suspeito catalogado no banco da polícia civil (chance superior à 93%), a imagem atual aparece ao lado da ficha em tela de uma central de controle e, a partir da confirmação manual da identidade, policiais em campo são avisados e recebem a ficha pelo WhatsApp. Acesse este infográfico do Instituto Igarapé para conhecer todas as iniciativas brasileiras instaladas até o ano passado. Em São Paulo, o reconhecimento facial utilizado no Sistema Detecta já levou a várias prisões.

A Rede de Observatórios da Segurança fez um levantamento de dados sobre abordagens policiais motivadas pelo reconhecimento facial durante os meses de março e outubro do ano passado. Conforme escreveu Pablo Nunes, coordenador de pesquisa da Rede “(…) em relação aos casos em que havia informações sobre raça e cor, ou quando havia imagens dos abordados (42 casos), 90,5% das pessoas eram negras e 9,5% eram brancas”.

Procurei dados mais amplos sobre a relação negros/brancos nas abordagens policiais que não usaram a tecnologia, mas não há nada atual sobre o tema. Por outro lado, o anuário de segurança pública de 2017 revela uma relação de 3-1 entre mortos negros e brancos (3240 x 963 vidas), em ações policiais (o aqui você acessa o anuário na íntegra). Apesar de chocantemente alta, esta relação contrasta com o 9-1 acima.

Numa outra linha, foram instaladas câmeras conectadas a sistemas de reconhecimento facial no metrô de São Paulo que, enquanto serviam à segurança, aproveitavam para monitorar as reações das pessoas à publicidade exibida. Ação do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) levou ao desligamento do sistema. Este caso nos lembra que o reconhecimento facial é a ponte entre o marketing e a repressão.

Perfil genético

Crimes costumam deixar vestígios; estes frequentemente contém DNA dos criminosos. Porém, como chegar aos seus proprietários originais? Tal como no caso do reconhecimento facial e outras formas de biometria, isso pode ser feito desde que exista um banco de dados biológico, contra o qual a amostra colhida na cena do crime possa ser cotejada. Sob este ponto de vista, a coleta e armazenamento de material genético (DNA) de suspeitos se disseminou nos Estados Unidos e outros países, ainda no século passado.

Em 2019, este princípio foi radicalizado pelo governo Chinês, empenhado na criação de um banco genético de toda a população masculina do país (acesse aqui para mais detalhes desta operação, conduzida com tecnologias americanas).

No Brasil, uma lei de 2012 (12.654/2012) passou a permitir a coleta de dados genéticos de suspeitos e a montagem de bancos genéticos com dados de condenados por crimes hediondos. No ano seguinte, um decreto instituiu o Banco Nacional de Perfis Genéticos (BNPG). Passados seis anos da criação do BNPG, foi proposto por meio do pacote anticrime de Sérgio Moro (Lei 13.964/2019) que condenados por certos crimes hediondos fossem obrigados a ceder seu material genético. Isto ocorreu em um contexto de ampliação acelerada na ampliação do banco que, no ano passado, acolheu mais de 55 mil novos perfis genéticos.

Como era de se esperar, a novidade dividiu opiniões. Ao passo que está demonstrado que quem já cometeu um crime tem mais chances de cometer outro – e o monitoramento genético pode ter papel inibitório, além de valor investigativo – a obrigatoriedade vai contra o princípio constitucional de que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo, conforme apontado pelos pesquisadores do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). Muito em função disso, a proposta (presente no Art. 9º-A, caput, § 5º, § 6 º e § 7º) acabou de fora da versão final da lei.

Para fechar

Há casos em que as tecnologias policiais são indiscutivelmente boas para os cidadãos, tipo câmeras individuais, câmeras em viaturas e os monótonos sistemas de integração e digitalização, mencionados no começo deste artigo. Há outros, em que as ferramentas tecnológicas tendem a combinar aspectos positivos e negativos.

Nestas circunstâncias, uma maneira de tomar partido é pelo balanço de custos e benefícios; outra, adiciona imperativos categóricos às avaliações utilitárias. Esta me parece bem melhor no médio e longo prazo, ainda que no tempo presente leve à exclusão de alternativas estatisticamente justificáveis.

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Polícia americana em crise é oportunidade para as tecnologias de vigilância http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/06/11/policia-americana-em-crise-e-oportunidade-para-as-tecnologias-de-vigilancia/ http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/06/11/policia-americana-em-crise-e-oportunidade-para-as-tecnologias-de-vigilancia/#respond Thu, 11 Jun 2020 07:00:08 +0000 http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/?p=464

Crédito: AP Photo/Brynn Anderson

A história recente do racismo americano cruza e muitas vezes se confunde com a do progresso técnico e da transformação cultural acelerada, que marcaram o século XX, em um movimento que apenas repete o que foi verdade no Século XIX, quando até a parede que dá nome à bolsa de valores mais famosa do mundo (Wall Street) foi construída por escravos.

Nos anos 1970-1980, firmou-se a ideologia típica do empreendedorismo do Vale do Silício, hoje hegemônica no mundo. Vale ler a série de ensaios publicados pelo UOL sobre o tema. Décadas após o seu surgimento, é correto dizer que contribuiu para a inclusão digital universal, a qual democratizou o acesso aos meios de comunicação, ainda que tenha feito muito pouco em relação às disparidades salariais e decisórias determinadas por raça e gênero.

Esta narrativa mostra-se ainda menos radiante quando contada pelo ponto de vista de quem viveu nos Estados Unidos durante as duas últimas décadas do século passado. Nos anos 1980, o crescimento acelerado do empreendedorismo tecnológico foi acompanhado por uma explosão no consumo de cocaína, apelidada de “a dama branca” pelos futuristas da época. A alta demanda dessa minoria rica e bem nascida serviu de pano de fundo para o surgimento do crack, oferecido a preços bem mais módicos nos guetos de maioria negra do sul de Los Angeles e, então, do resto do mundo.

Aí, para ajudar o resolver o problema, o congresso americano passou um conjunto de leis que criou uma disparidade penal de 100:1 entre traficar cocaína e crack, no país. Um dos resultados óbvios foi o encarceramento massivo de homens negros –vale ler este relatório do Departamento de Justiça americano.

Isso foi em 1986, ano em que Michael Jordan voltou ao time universitário da pequena Chapel Hill (Carolina do Norte), para se recuperar de uma fratura. Na época, eu estudava numa escolinha pública colada ao ginásio em o Pelé do basquete treinava, onde haviam classes só para negros, com horário de recreio separado e tudo mais. Bizarrice pouca é bobagem.

Em “A brief history of racism”, um dos mais citados estudos sobre o assunto, Fredrickson assinala que “a discriminação por meio de instituições e indivíduos contra os que são percebidos como racialmente diferentes pode persistir e mesmo se desenvolver sob a ilusão de ausência de racismo” (p.4). Naquela época não era muito assim; seja na atrasada Carolina do Norte, ou em qualquer outra parte.

Tanto foi que, em 3 de março de 1991, a polícia de Los Angeles (conhecida pelos seriados e bonés onde se lê “LAPD”) espancou severamente Rodney King, num incidente que produziu danos cerebrais permanentes na vítima e foi parar nas telas do mundo todo, graças a uma filmagem amadora. Rodney King estava em liberdade condicional, após uma condenação por roubo e havia se negado a parar o carro, quando primeiramente solicitado.

Treze dias depois, a estudante Latasha Harlins, de quinze anos, foi assassinada com um tiro na cabeça, pela dona de uma loja de conveniência, anteriormente agredida pela menina com um soco. Desta vez, o incidente foi filmado pelas câmeras de segurança. A assassina confessa pegou cinco anos de liberdade condicional, enquanto os policiais foram inocentados.

Em ambos os casos, as vítimas não foram agredidas aleatoriamente, não é este o ponto, mas a associação entre reação desproporcional e conivência judicial deixou os crentes no “American Way of Life” estarrecidos. Aos amigos tudo, aos inimigos, a lei – como assinalou Maquiavel, 500 anos antes.

Tendo a revolta pela absolvição dos quatro agressores de Rodney King como razão imediata e a combinação de fatores mencionada acima como razão profunda, Los Angeles foi palco de fortes revoltas, no comecinho de maio de 1992. O balanço inclui 55 mortos, mais de 2.000 feridos, além de 12.000 presos e US1 bi em prejuízos.

Pula para 2020. Os protestos causados pelo recente assassinato de George Floyd (Minneapolis, 25 de maio de 2020), os quais vêm incendiando os Estados Unidos e gerando ecos em outros países, possuem fortes semelhanças com as de 1992, bem como os crimes cometidos, marcados pela brutalidade gratuita contra homens negros desarmados, em atitudes não violentas.

A diferença mais explícita, é claro, é o fato de que Floyd morreu, enquanto King viveu para servir de porta-voz da sua história. Outra, é que o policial que sufocou Floyd foi indiciado por homicídio em segundo grau (não premeditado), enquanto os outros foram por crimes relacionados. A pena daquele pode chegar a 40 anos.

Mas, não só. A minha tese é que a situação atual aponta para desfechos categoricamente diversos, que vão ao encontro da transição tecnológica em curso (revolução cognitiva), em consonância com a própria pandemia – para o bem e para o mal, com impacto global. O objetivo deste artigo é explicar isso.

Efeitos das revoltas populares sobre o policiamento revelam porque 1992 não é 2020

Uma coisa fundamental que não mudou em Los Angeles com os protestos de 1992 é a letalidade da polícia, a qual permanece elevada. Outras, porém, mudaram: a taxa de policiais brancos caiu pela metade, bases de dados de comportamentos de risco foram criadas e número de prisões deixou de servir de medida interna de desempenho para promoções e outros usos institucionais. Sim, talvez você não saiba, mas, tal como em uma empresa, as polícias ao redor do mundo têm suas KPIs (indicadores de desempenho) e muito do que acontece nas ruas tem a ver com estas métricas.

Revoltas que sucederam crimes de natureza semelhante em outras cidades (São Francisco, Dallas, Chicago, Baltimore, entre outras) também contribuíam para a elevação do padrão comportamental da polícia, o que por sua vez convergiu para uma melhora em nível nacional, notável a partir de 2013. Porém, tal não é linear e generalizada: ao passo que a polícia das grandes cidades americanas vem matando menos, o contrário vem ocorrendo nas áreas menos populosas.

As consequências da morte de George Floyd e dos protestos que se seguiram parecem que serão muito mais profundas e duradouras. Minha hipótese é que não apenas podem reforçar o alinhamento em relação àquilo que o Departamento de Justiça Americano recomenda e o reconhecimento da humanidade do outro obriga, como devem catalisar mudanças estruturais, intimamente ligadas à tecnologia.

Na segunda-feira (8), Nancy Pelosi, líder da maioria democrata no congresso americano, propôs uma reforma legislativa focada em aspectos-chave do comportamento policial. Se a lei passar, a proteção legal dos policiais envolvidos em interações violentas irá cair significantemente, enquanto o mata leão e outros procedimentos de risco serão proibidos.

A fala da deputada ocorreu após nove dos 13 membros do conselho da cidade de Minneapolis fazerem uma declaração conjunta de que irão encerrar o policiamento na cidade, nos moldes em que ele é praticado hoje em dia. Para mim, o ponto central do pronunciamento proferido pela presidente do conselho, Lisa Bender, o qual acredito que seja muito mais do que uma bravata, é este aqui: “nós vamos adotar passos intermediários em sentido ao encerramento da polícia de Minneapolis através do seu financiamento direto e outras políticas envolvendo seu dinheiro, ao longo dos próximos meses”.

Os líderes do conselho da cidade de Seattle, cidade onde os protestos foram intensos e a reação policial particularmente enérgica, ensaiam movimento semelhante. Ali, a líder do comitê de manejo das verbas da polícia local, Teresa Mosqueda, propôs cortar US$ 400 milhões da força, sob a intenção de aniquilar sua estrutura atual.

Esta não é uma pauta inventada pelos políticos, sejamos claros. Ela foi incorporada do movimento Black Lives Matter, que vem batendo na tecla do desmantelo da polícia pela via financeira há tempos. Apesar de sua popularidade crescente, seria exagerado dizer que se tornou ou irá se tornar hegemônica em função dos protestos de maio/junho de 2020, de modo que a “a polícia dos Estados Unidos, como a conhecemos” deixará de existir. Para se ter uma ideia dos percalços deste caminho, basta considerar que tanto Trump, quanto o ex-vice presidente e atual candidato democrata à presidência, Joe Biden, declararam-se contrários à mesma.

Acontece que este não é um jogo de tudo ou nada. A combinação entre menor segurança jurídica, orçamento menor e limitação nos procedimentos e armas disponíveis deve ter efeito paralelo aos seriados de TV que glamourizam a profissão, só que com direção contrária.

Os políticos alinhados com o reforçamento do poder repressivo do Estado, que à princípio perdem com o desprestígio da polícia, verão nisso uma oportunidade única para promover o uso de tecnologias de vigilância e repressão, cuja impessoalidade é mais facilmente manejável do que o comportamento excessivo de policiais sem noção. Nas entrelinhas, seguirá o ainda mais crítico corte de custos com pessoal.

É lógico que estamos há décadas de qualquer discussão relevante sobre a versão não ficcional do Robocop. Mas, efetivamente, o crescimento no uso de câmeras de vigilância com reconhecimento facial e capacidade de mapear perfis (“profiling”), plataformas de inteligência artificial para a interpretação de comportamentos suspeitos, tracking por redes de celulares e mesmo CBDC (moeda digital, a qual é muito mais controlável) tendem a deslocar a questão que hoje se coloca de maneira interpessoal para outra esfera, que ainda nos é muito estranha. Tal como o Tik Tok vem provando, o mundo tende a se tornar cada vez mais chinês.

Para fechar

Uma das consequências dos protestos de 1992 foi o reforçamento do policiamento comunitário, que serviu de contexto para uma das mais eficientes tecnologias para a inibição da violência policial: as câmeras filamdoras atreladas ao corpo do policiais (body cameras). Estas, entretanto, não se tornaram hegemônicas até hoje. Do outro lado da equação, as filmagens de ações policiais se popularizaram e passaram a ser amplamente vistas como arma de defesa pelas minorias dos Estados Unidos e de outros países. O flagra do assassinato de George Floyd não é fenômeno isolado, neste século. Por sinal, diversos vídeos de ações violentas estão sendo escrutinizados e convertidos em provas em processos relativos à repressão aos protestos recentes.

Os excessos policiais recentes tendem a reforçar o uso de tecnologias de monitoramento proximal de comportamentos inapropriados, como câmeras dentro e fora das viaturas americanas, transmitindo as ações policiais por streaming para um servidor seguro, mas podem ir muito além disso. Elas também podem acelerar a substituição de partes do trabalho realizado manualmente por sistemas automatizados com inteligência artificial e dar novo gás ao processo de implantação de moedas digitais no ocidente (novamente, tal como vem ocorrendo na China), as quais permitem controles financeiros direcionados, em contraposição ao controle físico, cujo desprestígio é crescente.

Não é de se esperar um movimento linear, dogmático e em uníssono. Nesta mesma segunda-feira (8), em que Minneapolis e Seattle anunciaram a intenção de desmantelar sua polícia, o executivo-chefe da IBM, Arvind Krishna, declarou que a empresa pretende parar de vender softwares de reconhecimento facial para as forças de segurança; na quarta (10), a Amazon declarou que vai fazer uma moratória de 1 ano, nas vendas para o governo de seu software rekognition, de função análoga. Em outras frentes, a oposição à vigilância digital também é crescente e vem recebendo rápido apoio das marcas e de políticos de diferentes matizes (incluindo congressistas republicanos), que compreendem o quanto o assunto se tornou socialmente relevante, mobilizando compras e votos. Mas é de se considerar o fato de que as coisas tendem a mudar quando deixam os holofotes e que a saída mais fácil para o beco sem saída em que a repressão policial nos Estados Unidos se meteu é esta que estou colocando: o aprofundamento no uso de tecnologias de vigilância e repressão criminal.

A intensidade deste movimento de substituição tecnológica do aparelho repressivo vai ser em grande parte determinada pelas respostas da sociedade civil às diferentes tecnologias (uma coisa que vai contar é o poder de mobilização continuada do Black Lives Matter) e os desfechos das próximas eleições legislativas e federais. De qualquer maneira, uma coisa parece-me certa: as tecnologias que limitam a pessoalidade ganham, enquanto a categoria profissional dos policiais perde. Merecidamente e no melhor interesse da sociedade? Em grande medida, sim. Mas, visto à distância, o movimento que se anuncia não é tão diferente daquele que vem se dando em relação às profissões de A a Z, o qual o coronavírus catalisou.

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Não precisa inventar: retomada passa pelas tecnologias que já existem http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/05/31/retomada-sera-menos-sobre-inovacao-e-mais-sobre-tecnologias-ja-consolidadas/ http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/05/31/retomada-sera-menos-sobre-inovacao-e-mais-sobre-tecnologias-ja-consolidadas/#respond Sun, 31 May 2020 07:00:35 +0000 http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/?p=424

Crédito: Rawpixel.com/Freepik

Se existe um consenso intelectual derivado da pandemia e das respostas necessárias para reduzir seus danos é o de que as coisas não voltarão a ser como antes.

Mesmo que desejemos que retornem, os hábitos serão outros, pelo simples fato de que as soluções encontradas para enfrentar a crise não desaparecerão de nossa memória.

Esta é uma visão otimista, é claro, que pressupõe que a necessidade de superação nos ajudará a evoluir. No outro extremo está a ideia de que vacinas e terapias eficazes tardarão a chegar às mãos do povo brasileiro e, neste ínterim, os desafios afetivos e socioeconômicos acabarão por sugar muitos de nós para o fundo do poço.

As diversas versões do famoso “novo normal” partem de prerrogativas como estas para traçar panoramas globais, do ponto de vista das famílias e das organizações. O grande porém é que peculiaridades locais têm grande importância na futurologia.

É tentador dizer que as particularidades brasileiras são tantas e tão fortes que chegam a se sobrepor aos fatores globais. Não sei se é o caso, mas é fato que abundam, estão infladas e não apresentam indicativos de arrefecimento. O exotismo nos define.

Este artigo procura discutir alguns aspectos do novo normal da área de tecnologia, com foco na produção de software, startups e o que vem junto. O propósito é lançar luz sobre três tendências que devem se fortalecer localmente, com a retomada gradual da atividade econômica e que vão na contramão de muito do que ando lendo por aí. Para tanto, pautei-me por conversas com líderes do setor, dados originais de pesquisa e a minha própria experiência como sócio de um escritório de inovação, que já possui quase uma década.

Curva da retomada da “cena da tecnologia”

Comecemos pelo fator mais importante, sensível e imponderável: a retomada.

Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer nos próximos meses, em relação ao curso da epidemia, do que segue que ninguém tem ideia de quando e como a econômica brasileira irá reagir. Dito isto, tanto as projeções da Universidade de Singapura quanto as da Universidade Johns Hopkins (dois importantes centros de pensamento em COVID-19) apontam que, em termos epidemiológicos, o mais provável é que a situação local apenas se estabilize em torno do fim de dezembro.

A estabilização apontada não pode ser confundida com erradicação do COVID-19 (ainda que empresas como a Pfizer estejam falando na possibilidade de lançamento de uma vacina em outubro deste ano, conforme você pode conferir aqui: https://cnb.cx/3dmlwJY). O esperado para este momento é uma relevante redução nos casos observados, que dependerá de medidas de afastamento social para se manter, até que finalmente uma vacina seja disponibilizada em larga escala no país. Vale a pena ler a bela reportagem do UOL sobre estes estudos.

Tão pouco seria o caso de assumir que a atividade econômica nacional como um todo permanecerá estagnada nos níveis atuais – não se desespere – o foco aqui é tecnologia. O ponto é que o ecossistema em que esta coabita é bastante dependente dos fundos, os quais estão dando indicativos de cautela prolongada ao redor do mundo.

Tendências do mercado de tecnologia brasileiro

A cena de tecnologia brasileira é formada por gente que trabalha no mundo corporativo, pequenos e médios empresários-desenvolvedores à moda do Vale do Silício, profissionais independentes que circulam com diferentes chapéus e muitas vezes ganham a vida com algo diverso e pesquisadores que programam em tempo parcial. Muitas dessas pessoas se encontram em meetups, hackerspaces, espaços dedicados em empresas (como o Google), eventos específicos (como a bsides), fóruns dedicados a linguagens diversas, grupos no Telegram e, de maneira indireta, no processo de garimpagem de soluções para problemas técnicos, no stack overflow e outros.

Há três maneiras essenciais de se manter atuante neste mercado: criar uma empresa com um produto rentável; trabalhar numa empresa, de preferência bem estabelecida; não ter no desenvolvimento tecnológico a fonte principal de renda e ir combinando hobby com oportunidade. Meu foco recai sobre a primeira.

Do ponto de vista do capital internacional e dos gigantes que se estabeleceram de maneira schumpteriana, empresas de Biotech, webconferencing (como o Hangout do Google, que chegou a ter crescimento diário de 60% em março, e Zoom, que saltou de 10 milhões para 220 milhões de usuários, entre dezembro de 2019 e março deste ano), conteúdo digital (como a Netflix, que adquiriu mais de 15 milhões de novos clientes neste ano) e entrega de comida (como a Rappi, cuja operação brasileira cresceu mais de 300% neste ano) estão valendo significativamente mais do que antes da pandemia eclodir. Tudo sugere que essa vantagem competitiva servirá de mola propulsora para que consolidem tal relevância, ao longo dos próximos meses.

Por exemplo, hoje a Zoom vale mais do que as sete mais valiosas empresas aéreas do mundo combinadas. Em 15 de maio, a Zoom estava valendo U$48.8 bi, enquanto a Uber estava valendo US$ 56,8 bilhões – uma aproximação surpreendente, que pode impulsionar a expansão da empresa em diversas direções colaterais, na linha do próprio Uber, que foi de “viagens compartilhadas” para “empresa de mobilidade”.

O Brasil é menos exuberante quando o assunto é inovação radical – e assim deverá se manter, em função do comportamento refratário dos fundos de Venture Capital – mas é bastante rápido quando o assunto é seguir o cheiro do dinheiro. Apenas em março, o nosso comércio eletrônico assistiu a um crescimento de 32,6% no número de pedidos, o que se traduziu em faturamento (corrigido) 26,7% maior, conforme levantamento feito pela Compre&Confie, em parceria com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico. As vendas digitais de produtos de saúde cresceram 111%, enquanto as de perfumaria cresceram 83% e as de supermercados cresceram 80%. Estes números estão relacionados a esforços de transformação digital, que muitas das empresas destes setores já estão fazendo, apesar da falta de caixa.

As vendas online de alguns produtos de nicho, como aparelhos para ginástica em casa, dispararam ainda mais nestes últimos meses (mais de 1000% na Centauro, por exemplo). Outro destaque vai para os marketplaces de eletroeletrônicos e diversos (Americanas, Magazine Luiza e outros), que se instalaram em definitivo no cotidiano da classe média e que, por isso, tornaram-se ainda mais estratégicos. Esse aumento não significa que todas essas empresas estejam faturando mais do que antes da pandemia, é importante notar. De qualquer modo, as que tiveram quedas de faturando e valor de mercado, certamente estariam muito pior se não fossem suas operações digitais bem estruturadas. Em paralelo, há casos como o da Magalu, cujo valor de mercado aumentou significativamente, ultrapassando o do Banco do Brasil, entre outros titãs, em função do crescimento do seu marketplace que foi superior a 70%, durante este ano.

Ainda que sonhemos com magníficas invenções, o mais realista é que a recuperação do setor, no Brasil, seja dominada pela proliferação de contratações e negócios voltados à transformação das dinâmicas de vendas de quem não conseguiu se antecipar à crise ou não está com dinheiro suficiente para fazê-lo agora. Estes retardatários deverão impulsionar a demanda por marketplaces, sistemas de pagamento, CRM, ERPs online, segurança, logística e afins, na expectativa de reverter as perdas do período atual. Em paralelo, deverão fortalecer a expansão e o amadurecimento do marketing digital, que ainda não atingiu a plenitude por aqui.

Outra área tecnológica que deve ganhar bastante tração é a do ensino remoto, por meio de plataformas de LMS (do tipo Moodle e seu primo corporativo, o Totara). Isto porque os pedidos que chegam ao mercado costumam envolver muitas customizações, as quais os grandes fornecedores internacionais têm dificuldade para atender sem subir muito o preço. Não me surpreenderei se o próximo unicórnio nacional vier deste segmento.

Compartilhando princípios tecnológicos essenciais das plataformas de ensino modernas – escalabilidade, aprendizado de máquina e responsividade – diversas plataformas de serviços devem surgir ou se firmar ao longo do ano que vem. De pré-triagem médica à distância (que só não decolou antes por encrencas regulatórias), a marketplaces de profissionais autômos/freelancers, a corrosão do emprego formal, aliada às inseguranças sanitárias dos consumidores, deve impulsionar a concorrência em diversos segmentos de relacionamento digital. É isso o que muita gente que investe na área vêm falando, com propriedade.

Internacionalização das oportunidades

Para o mercado internacional, os salários pagos, no Brasil, para os especialistas da área de tecnologia, nunca foram muito altos, mas sempre estiveram longe dos patamares obscenos encontrados na Índia e em outros países onde as pessoas falam inglês fluentemente. Isto explica porque, tradicionalmente, as multinacionais direcionam pouco o seu outsourcing de tecnologia para cá.

Acontece que esta perspectiva mudou bastante nestes últimos meses, conforme o real foi se desvalorizando frente ao dólar e passou a ser conhecido como moeda tóxica. Vale notar que nossa moeda apresentou a pior performance do mundo entre janeiro e abril deste ano.

É verdade que a recuperação econômica que serve de pano de fundo para as presentes digressões é consonante com a valorização do real; porém, como a conjuntura política sugere agravamento da instabilidade, não me parece sensato apostar contra o dólar. Tal linha de raciocínio é coerente com a dos bancos internacionais, como a UBS, que em seu cenário mais pessimista prevê a moeda americana a R$7,35, no fim 2021 (eu não acho que será o caso, mas tão pouco espero uma recuperação relevante do real).

A conclusão que segue é que, proporcionalmente, deverá haver mais projetos de tecnologia voltados ao mercado internacional, além de M&As de empresas de tecnologia brasileiras com escritórios de empresas gringas – não é que estes serão muitos (nacionais e internacionais seguirão achatados), mas existirão em número suficiente para que se possa falar em tendência da Fase I do tal novo normal e trarão como um de seus efeitos colaterais o reforçamento da percepção de que o inglês é fundamental para quem trabalha nesta área.

Na mesma linha, uma das consequência da consolidação do trabalho remoto nos Estados Unidos, Europa e Ásia é a proliferação das equipes descentralizadas de alto rendimento, com profissionais da área de tecnologia espalhados por diversos países. O Brasil se destaca bastante nas áreas mais criativas da tecnologia (e.g., pós-produção, 3D, frontend), longamente nutridas pelas agências de publicidade, produtoras, agências de design e afins. Meu palpite é que alguns destes talentos acabarão contratados para posições estratégicas por empresas americanas e europeias, complementando o quadro criado pelo outsourcing mais generalista.

Espaços físicos e home office permanente

O New York Times de 19 de maio publicou um excelente artigo sobre o movimento que empresas como Twitter vêm fazendo para tornar o home office permanente. Mais recentemente (29/05), a EXAME noticiou os resultados de uma pesquisa que a empresa de serviços imobiliários Cushman & Wakefield encomendou sobre tendências do universo corporativo, para a retomada. A amostra foi composta por executivos de multinacionais. De acordo com 59% dos que responderam, há mais pontos positivos do que negativos no home office e cerca de 73% das empresas (no caso, multinacionais atuando no Brasil) pretendem manter a prática, em algum nível (para saber mais: https://bit.ly/2MfAkhm).

De fato, duas entidades centrais da cena tecnológica não têm data para readquirir seu prestígio: coworking e elevador-gigante-levando-à-grande-sala-apinhada. Mas, será que isso – e também aquilo que as pessoas estão falando no calor do momento – é suficiente para assumir que o home office permanente vai ser tornar tendência dominante? Acredito que não, ou melhor, não tanto quanto vem sendo noticiado.

O coworking é o símbolo mais máximo da economia compartilhada no trabalho e, muito em função dos investimentos em marketing do WeWork, caiu na boca do povo. Porém, quando olhamos os números, o quadro se mostra menos contagiante, especialmente fora da cidade de São Paulo. Senso realizado em 2019 mostrou que haviam 1.497 coworkings no Brasil, sendo 388 na capital paulista. Não são tantos assim. A conclusão é que a redução no interesse por coworkings, em função do risco de contágio de COVID-19 (e seus efeitos psicológicos de longo prazo) não deverá afetar a cena de tecnologia de maneira muito relevante, exceto pelo fato de que muitas empresas deste ramo acabarão quebrando.

Caso mais sério é o dos prédios corporativos com seus elevadores para 19 pessoas, que desembocam em lajes para mais de 100 e que tendem a acomodar tanto os escritórios das multinacionais, quanto muitos dos menores. Muita gente vai preferir evitar subir nestas condições, o que será um problema para as empresas.

Porém, dois fatores entrarão no modelo mental dos agentes decisórios envolvidos nesta questão. O primeiro, mais importante, é que nosso estilo de fazer negócios é fortemente dependente da empatia, ao contrário do que se dá na matriz, que tanto tentamos copiar. Em função de uma tradição que combina personalização e descrença no poder dos contratos, é muito difícil fechar um projeto relevante no Brasil sem passar por uma espécie de teste do sofá platônico (um “namoro de ideias”, com muito olhos nos olhos), que não pode ser adequadamente reproduzido de maneira virtual. Todo empresário um pouco mais rodado sabe disso – não sendo a área de tecnologia algum tipo de exceção.

O segundo fator é que o universo das empresas pequenas e médias – o grosso da cena da tecnologia – apresenta lacunas nada desprezíveis na gestão de pessoas e da informação. No Brasil, apenas as grandes empresas e os bancos têm gestão profissional a ponto de poderem migrar a operação para o ambiente remoto sem sofrerem muito com isso. Para todo o resto, faltam gestores treinados, dinheiro para comprar as licenças de software necessárias para colocar a totalidade da equipe on-board, meotodologias de acompanhamento remoto do processo produtivo (o que é crítico em tecnologia), além da vontade de tornar as interações mais impessoais e, portanto, chatas, em nome da produtividade. Hoje isso tudo encontra-se em segundo plano – até porque as coisas estão mais lentas – porém, estas lacunas deverão ocupar espaço mais central no debate, uma vez que o mercado se aqueça.

Isso tudo me leva a crer que o principal movimento será em sentido à combinação do home office parcial, que em boa parte dos casos deverá privilegiar as divisões menos críticas ao negócio, com a ocupação de espaços menores e mais ventilados, fora das áreas de maior verticalização das cidades. Tal hipótese é consonante a outro dado da pesquisa da Cushman & Wakefield: de acordo com cerca de 45% dos executivos, o espaço físico das empresas deve ser reduzido e esta redução deve ficar entre 10% e 30%. Este movimento deverá trazer à tona a jamais pacificada discussão sobre mudanças no zoneamento urbano, em São Paulo e outras capitais, para acomodar a mudança no perfil da demanda corporativa, o que é outra discussão, não menos importante.

Para fechar

Se existe um mote para todo exercício de futurologia é de que, ao fim e ao cabo, irá se mostrar ao menos parcialmente errado. Ciente disso, propus aqui alguns pontos de vista que vão na contramão de muita coisa que estão dizendo por aí, na expectativa de despertar um debate saudável. Caberá ao tempo dar o veredito sobre a relevância destas previsões.

Conforme argumento, a retomada não irá nos levar a inovar mais, no sentido radical, genuíno, mas a promover a disseminação de tecnologias já consolidadas, com foco na famosa transformação digital. O argumento é simples: ousar demanda capital de risco e este seguirá retraído por um bom tempo, ao passo que o atraso tecnológico, em sua esfera mais elementar, cobrará seu preço de maneira crescente, aquecendo a demanda pelo arroz com feijão da tecnologia.

Outro ponto, agora em relação à nossa capacidade de entrega tecnológica, é que seremos mais notados pelas empresas estrangeiras. De novo, a razão é prosaica: o real permanecerá desvalorizado por um bom tempo e isso direcionará o outsourcing operacional de tecnologia (que tende a crescer nos Estados Unidos e Europa), além de algumas contratações de alto nível, para cá.

Finalmente, acredito que o home office amplo e irrestrito não irá se tornar tendência dominante na área. Parece-me mais razoável considerar que vamos passar a nos espalhar por espaços mais arejados e menos cisudos, fora dos circuitos  manjados dos centros empresariais. Pela combinação de home office parcial e ocupação desses espaços vamos nos livrar de um monte de quinquilharias, como o relógio de ponto e o crachá. Eis aí uma coisa boa que a pandemia pode nos trazer.

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Profusão de aplicativos dificulta a vida dos idosos na quarentena http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/05/12/profusao-de-aplicativos-dificulta-a-vida-dos-idosos-na-quarentena/ http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/05/12/profusao-de-aplicativos-dificulta-a-vida-dos-idosos-na-quarentena/#respond Tue, 12 May 2020 17:23:06 +0000 http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/?p=418 Com Renato Meirelles, CEO do Instituto Locomotiva.

Vamos começar por algo inédito. E relevante por si só.

Desde que a pandemia de COVID-19 aterrissou no Brasil, o Instituto Locomotiva conduziu um conjunto sistemático de pesquisas sobre os impactos da doença na vida dos brasileiros.

Uma de nossas pesquisas, conduzida em parceria com a DOTZ, envolveu 5872 pessoas maiores de 18 anos e teve como objetivo primário mapear o comportamento dos brasileiros frente à necessidade de se isolar espacialmente e ficar em casa.

Na fase de tratamento estatístico, categorizamos os respondentes em adultos saudáveis, adultos de risco (portadores de doenças que aumentam as chances de morrer de COVID-19), idosos saudáveis e idosos de risco. Idosos de risco seguem o critério relativo à presença de doenças pré-existentes, ainda que saibamos, do ponto de vista clínico, que todos os idosos são de risco.

Eis alguns dos resultados que encontramos, que muito nos surpreenderam e que compartilhamos em primeira mão com vocês:

 

O quanto você concorda com a seguinte frase: nos últimos sete dias eu fiquei em casa.

Adulto 69,78%

Adulto Grupo de Risco 68,00%

Idoso 55,78%

Idoso Grupo de Risco 80,11%

 

O quanto você concorda com a seguinte frase: nos últimos sete dias eu não participei de eventos sociais.

Adulto 76,67%

Adulto Grupo de Risco 72,67

Idoso 63.78%

Idoso Grupo de Risco 77,78%

 

Em média, por quantas horas você permaneceu fora de casa quando saiu nesses últimos sete dias?

Adulto: 3 horas e 32 minutos

Adulto Grupo de Risco: 3 horas e 58 minutos

Idoso: 3 horas e 20 minutos

Idoso: Grupo de Risco 2 horas e 13 minutos

 

Nos últimos sete dias, em quantos você saiu de casa?

Adulto 2.45

Adulto Grupo de Risco 2.43

Idoso 2.70

Idoso Grupo de Risco 1.99

 

Conforme é possível notar, os idosos saudáveis saíram mais dias à rua do que os adultos saudáveis e participaram de mais eventos sociais. Por outro lado, suas saídas foram um pouco mais curtas do que as dos adultos, o que pode estar relacionado ao fato destes últimos estarem, prioritariamente, saindo para trabalhar.

De uma forma ou de outra, a grande questão é que as ruas estão – ou estavam durante o período em que as perguntas foram respondidas – com muito mais idosos do que seria de se imaginar se estivéssemos tratando de “agentes racionais”.

O objetivo deste artigo é ajudar a entender estes resultados e sua relação com a tecnologia.

 

Por que as pessoas – e os idosos em particular – não estão se cuidando mais?

As razões pelas quais as pessoas burlam recomendações que podem salvar suas vidas são várias. Aqui na Locomotiva estamos começando a entender isso para além de teorias e especulações, uma vez que fizemos pesquisas subsequentes igualmente amplas para obter tais respostas.

Há, de qualquer maneira, uma estrutura geral que pode ser aplicada:

Em primeiro lugar, impõem-se as urgências de quem é forçado a sair de casa para não passar fome, sobretudo nas favelas, além de médicos, enfermeiros e outros profissionais considerados essenciais neste momento.

Em segundo lugar, impõe-se o peso das determinações institucionais e da lógica de grupo que lhe confere legitimidade moral. Se estas determinações são homogêneas, inclinações consensuais tendem a emergir e mesmo aqueles que discordam tendem a segui-las. Já se há conflitos de agência, como é o caso no Brasil, a moral de grupo é enfraquecida e uma brecha se abre para quem prefere se ater apenas àquilo que lhe é conveniente.

Depois vêm as questões mais individuais, solipsistas. Otimismo, autoengano, miopia sobre o futuro, assim como ansiedade, tendências obsessivas e o par introversão/extroversão impactam o apetite ao risco de cada um e, consequentemente, o grau de exposição.

Uma das questões individuais que não pode ser subestimada é da capacidade substitutiva de cada um. Quando somos alijados de algo que nos é importante – como o contato presencial com nossos parentes e amigos – tendemos a procurar formas de compensar isso e preservar nossa satisfação com a vida. Uma das formas mais elementares é o suprimento virtual de nossas necessidades práticas, outra é a virtualização relacional.

É possível especular que os idosos da nossa amostra estão sob o signo do ruído institucional – como estão os brasileiros em geral – mas não seria sensato atribuir o padrão observado apenas a isso, uma vez que os idosos de maior risco são os sujeitos que menos se expõem. A nossa hipótese é que dificuldades substitutivas tornam o isolamento social mais sofrido, estimulando os mais saudáveis a saírem às ruas.

 

As dificuldades substitutivas dos idosos podem ser divididas em blocos

Se há uma característica tipicamente humana, esta é a tendência a fundir aspectos diversos da experiência em realidades fenomenológicas aparentemente irredutíveis. Isso, contudo, não nos impede de tentar organizá-las para melhor as compreender.

No caso das dificuldades tecnológicas que dificultam a quarentena dos idosos, um bloco combina aspectos econômicos e culturais gerais: na média, idosos têm renda menor, acesso mais limitado à internet, aparelhos celulares de má qualidade, menos desenvoltura para realizar tarefas digitalmente e uma relação com o mundo baseada em práticas fundamentalmente analógicas.

Em seguida, vêm as dificuldades relacionais. Conforme a vida avança, as relações sociais tendem a diminuir numericamente e a se concentrar nos amigos mais próximos e na família, cuja disponibilidade passa a ser muito mais determinante no combate à solidão, do que ao longo das fases mais produtivas da vida. Se estes familiares não se mostram muito disponíveis para interagir digitalmente com o idoso, este tende a se sentir mais solitário, o que novamente o puxa para a rua.

Finalmente, vêm as dificuldades específicas no trato das tecnologias digitais. Ainda que a completa indisposição para se conectar esteja em franco declínio entre os idosos brasileiros, fato é que a grande maioria acolhe as novas tecnologias de maneira bastante limitada, sob uma lógica que chamamos de “passividade tecnológica”.

Estas são pessoas que respondem positivamente quando guiadas e estimuladas, ao mesmo tempo em que não se sentem capazes de protagonizar iniciativas digitais. Por exemplo, se a família marca uma videoconferência e manda um link, o sujeito clica e participa mas, nem por isso, consegue organizar seus próprios encontros virtuais.

No nosso ponto de vista, a passividade tecnológica bloqueia a substituição compensatória no âmbito das relações entre pares, estimulando o idoso a sair de casa.

Apesar de aparecer por último em nossa lista, tal fator não deve ser desprezado. Tanto pelo contrário, como isso tudo interage e se reforça, acaba tendo impacto muito maior no comportamento do que pode parecer à primeira vista.

Nas seções seguintes, apresentamos duas características das tecnologias digitais dominantes no Brasil, que contribuem para esta situação deletéria para os idosos.

Lado A: interoperabilidade

Quando o telefone surgiu, quem possuía o revolucionário aparelho não podia sair ligando para qualquer um que também o tivesse; muito pelo contrário, os ramais eram separados. Foram necessárias décadas até que estivessem conectados.

Hoje em dia, ligamos para telefones celulares e fixos, sem nos atermos à importância desta inovação para a vida contemporânea. No mundo da telecomunicação existe interoperabilidade.

A mesma coisa se aplica ao e-mail, que hoje em dia é agnóstico em relação ao provedor, ou seja, que permite que eu mande uma mensagem do meu @usp para o seu @uol, sem me preocupar com a chance dele se perder no caminho.

Se é assim, porque é que não posso mandar uma mensagem do meu WhatsApp para o seu Facebook Messenger que são da mesma empresa; ou, ainda, porque não posso te chamar do Skype para falar com você, que só aprendeu a usar o Zoom?

O que, de tão extraordinário, separa a possibilidade de dois provedores de e-mail se comunicarem, da possibilidade de dois serviços de webconferência ou de mensagens pela internet fazerem o mesmo?

Quer a verdade? Nada, ou melhor, nada remotamente alinhado aos interesses da sociedade. Tanto é que assim que o Facebook já declarou que vai integrar o Messenger ao WhatsApp e o Skype permite a inicialização de uma conversa no Zoom de dentro de sua aplicação – desde que você esteja usando a versão paga ou “for Business” do produto da Microsoft.

A interoperabilidade corporativa é um problema conhecido, que vem sendo tratado com atenção crescente pelas gigantes da comunicação digital, bem como por algumas startups, como a pexip, que oferece o que se convencionou chamar de Integration as a Service, para facilitar a vida dos executivos e suas equipes, nessa Babel da comunicação digital.

O grande porém é que quem mais sofre com problemas de operabilidade não consome as versões pagas dos aplicativos de comunicação digital, nem pode pagar por um serviço que junte tudo isso e lhe permita centralizar seu conhecimento e foco digital.

Seria ingênuo assumir que as empresas de tecnologia vão se mobilizar espontaneamente para resolver tal problema, uma vez que a resolução tende a ir de encontro ao sonho do monopólio próprio.

É bem mais cômodo investir para que as dificuldades dos usuários mais velhos sirvam de catalizador na formação de consenso em torno da solução que disponibilizam. É justamente por este ângulo que se pode entender o movimento para liberar webconferências de até 50 participantes no WhatsApp, ao invés de agir mais diretamente para facilitar a vida de todo mundo.

 

Lado B: integrações

Se a interoperabilidade é o Lado A da passividade tecnológica, a ausência de integrações entre soluções digitais complementares é o Lado B.

Em linhas gerais, falta de interoperabilidade e ausência de integrações entre soluções digitais complementares criam problemas semelhantes, limitando a desenvoltura digital de idosos e outros, que têm dificuldade para baixar um sem-fim de aplicativos, preencher cadastros com confirmação do e-mail, aprender suas respectivas lógicas de funcionamento e assim por diante.

O grande diferencial está na maneira como o mercado vem tratando estas questões. Enquanto a interoperabilidade é carta fora do baralho para quem dita as regras do jogo, a solução para o problema das integrações subsidia alguma das maiores iniciativas digitais da nossa era. Neste caso, o exemplo mais bem sucedido é o chinês WeChat, que personifica o conceito de super-app, isto é, de plataforma onde as outras soluções podem se integrar com facilidade, evitando o périplo descrito acima.

Por meio dele, é possível mandar mensagens, fazer ligações dentro e fora do país, transferir dinheiro, pedir comida, jogar e assim por diante.

É bom para os mais velhos, mas péssimo para a sociedade como um todo.

Isto porque o WeChat – e os outros super-apps, como o Alipay (China) e o Go-Jek (Indonésia) – tratam as aplicações abrigadas sob seu guarda-chuva como coadjuvantes que podem ser removidos, de acordo com seus interesses. Definitivamente, não é o que Rappi ou Ifood imaginam para os seus negócios, nem aquilo que melhor pode servir a nossa população.

Assim, na prática, o problema se encontra tão órfão de soluções socialmente adequadas quanto o da interoperabilidade.

Quem sabe esta época de mudanças tão dolorosas pode ajudar a mudar este cenário.

 

Considerações finais

Internet ruim, celulares velhos, hardwares e softwares com usabilidade concebida para o público mais novo, concepção de mundo alheia à lógica das tecnologias digitais e muito mais – assim vem sendo a experiência dos mais velhos, que a necessidade imperiosa de ficar em casa agrava.

O ponto central deste artigo é que devemos adicionar a esta lista dois fatores muito pouco discutidos – interoperabilidade e integrações – que contribuem significativamente para a passividade tecnológica, que caracteriza a relação da maioria dos idosos com a tecnologia.

Não é fácil solucionar os desafios que impõem sem cair em arapucas maiores – monopólios, regras que podem limitar a inovação e externalidades de todos os tipos. Ainda assim, é importante que se desenvolva uma agenda de debates em torno destes pontos e que as empresas de tecnologia incorporem de uma vez por todas o compromisso com a autonomia digital de quem fica em casa.

Nunca na história isso foi tão importante.

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Crônicas de uma Era: a Verdadeira História do Homem que se Vendeu na Bolsa http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/04/28/cronicas-de-uma-era-a-verdadeira-historia-do-homem-que-se-vendeu-na-bolsa/ http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/04/28/cronicas-de-uma-era-a-verdadeira-historia-do-homem-que-se-vendeu-na-bolsa/#respond Tue, 28 Apr 2020 07:00:44 +0000 http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/?p=413 Só há três ingredientes na receita do destino: fatos, sorte e paradoxos. Para os desavisados é tudo a mesma coisa, mas, na filosofia do Diego, são bem diferentes.

Malhar todo dia e fazer curso de formação de ator são fatos. Ser escolhido para participar do Big Brother é parte da sorte. Pegar a queridinha do programa, sobreviver a três paredões e estar duro e desempregado alguns meses depois é mais um de seus paradoxos – não cabendo na esfera da sorte e menos ainda na dos fatos.

Há vários outros princípios interessantes na sua filosofia, como o de que comida fria é mais saudável que comida quente. Segundo prescreve, o almoço deve descansar no armário da academia, até que se torne um poderoso elixir da vida. Legiões acreditam.

Também tem o do carro como ambiente ideal para novos contatos profissionais. Foi por causa deste princípio que decidiu fazer Uber, na época que ninguém o conhecia. Por causa dele também é que a sorte o encontrou, disfarçada numa senhora que, como quem não quer nada, lhe incentivou a tentar ser Brother, por toda Luiz Carlos Berrini.

Se joga, meu filho, você é bonitão e aposto que tem um…grande talento – disse-lhe com uma piscadinha maliciosa.

Mas o fato é que tudo passou como turbilhão e o que lhe sobrara de mais palpável era seu recall de subcelebridade, descendo pela ampulheta 24/7 – verdadeiro paradoxo.

Para você que não acompanhou pela mídia, vale dizer que isso foi perto do final de 2018, época em que o que estava muito em alta eram as criptomoedas, do Bitcoin e seus semelhantes. Diego gostava de dizer que os bancos iriam acabar e as pessoas iriam emitir suas próprias moedas ou “tokens”, conforme estudado no YouTube.

Foi ali também que encontrou inspiração para a tokenização de si mesmo, coisa que ninguém jamais havia tentado, apesar das tokenizações de imóveis e obras de arte. Vendeu o carro e pôs tudo numa empresa do pequeno Luxemburgo, que prometia tokenizar qualquer coisa, em menos de 24 horas. Não era truque. Sorte.

A mídia se deliciou com a ideia, conforme a entrevista abaixo atesta:

– Quem assistiu ao último BBB certamente se lembra de Diego Rai, 29 anos, o Raian, cujo romance tórrido com Isabela Ferraz terminou mal, quando vomitou sobre a bela enquanto dormia, completamente embriagado. Para quem não sabe, o muso é empreendedor está lançando uma ideia radicalmente original. Explica para a gente qual é o plano desta vez, Raian.

– Boa noite, Camila, boa noite para você que nos assiste de casa. Bom, há muito tempo eu curto criptomoeda, como o Bitcoin e o Ethereum. Aí eu decidi criar a minha própria moeda, a Raian Coin. Só que ela não é uma moeda qualquer. Quem tiver as minhas moedas vai poder acompanhar a minha vida por três anos e ganhar uma parte de tudo o que eu receber. Basta instalar um app para que o dinheiro caia na conta. Totalmente sem burocracia.

– Como assim acompanhar toda a sua vida?

– É como um Big Brother sem confinamento. Um Big Brother cuja casa é o mundo, onde você pode ser meu expectador, minha expectadora e também ganhar dinheiro comigo. E tem mais, tudo vai seguir os princípios da democracia líquida.

– O que é isso, Diego?

– A comunidade vai poder decidir o que eu devo fazer e os votos vão ser proporcionais à quantidade de moedas possuídas.

– É sério?

– Sim. Esses tokens dão direito ao que eu ganhar nesses três anos e você pode ainda dirigir a minha carreira e até a minha vida.

– Uau, gente, olha isso, controlar esse homem. Como pode, né? E o que você faria se estivesse no controle?

– Eu investiria na minha carreira de ator e também na abertura de uma startup.

– Startup? De quê?

– Ainda não sei, são muitas as possibilidades. Etc.

Já outros veículos eram menos condescendentes, publicando matérias como esta aqui: “Sem contrato e sem dinheiro, ex-BBB vende a si mesmo por meio de criptomoeda”. Até saiu um artigo especializado no UOL/FSP de um jurista que questionava a legalidade do que o Diego estava fazendo, com o seguinte título: “Escravizar a si mesmo é crime no Brasil, mas zona cinzenta impede ações”.

Naturalmente, a notícia também chegou às paragens onde investidores experientes e hackers dividem o bolo deixado na mesa pelos que se acham espertos. Foi ali que surgiram os primeiros memes sobre a nova moeda e seu criador, os quais ajudaram a catapultar sua fama. Paradoxo, mais do sorte.

Um fato que o Diego conheceu e reconheceu logo após o lançamento é que o bordão “falem mal mas falem de mim” não funciona muito bem no mundo dos negócios. O ceticismo em relação à capacidade dele fazer qualquer coisa de relevante ao longo dos próximos anos – e talvez em toda a vida – deu o tom do mercado, desde o lançamento da moeda. Mas aí entrou a Fernanda, ou como dizem os analistas, o Fator Fernanda.

Se existia um paradoxo na vida da Fer era o de ser jovem, filha de banqueiro e passar seus dias absolutamente sozinha. Difícil dizer o que contribuía mais para isso, se a feiura, a chatice da família a todo tempo lhe assombrando, ou a timidez avassaladora. As amigas lhe diziam que era a timidez, mas, entre si, divergiam.

O que a Fer colecionava eram paixões platônicas; desde umas bem na linha de Platão, Aristóteles e companhia, como a que tinha pelo seu antigo professor de piano, o maestro Berci, até outras radicalmente tórridas, com direito a suores noturnos e pôsteres no quarto. Diego estava no alto desta segunda categoria.

Foi difícil para ela engolir essa coisa toda de criptomoeda separando-a de seu muso; não que ela questionasse a premissa, pelo contrário, apenas preferia poder comprá-lo de uma vez e mandar entregar em casa. Mas depois tomou como fato, afinal, apesar de uma ou outra palavrinha nova, a lógica é a da bolsa de valores, cuja existência tanto precede quanto sustenta a fortuna da sua família. Um dia após entrar no mercado de criptomoedas, já estava comprando Diego sem dó nem piedade.

A estratégia vingou e, naquela mesma semana, tudo indicava que ela iria rapidamente controlar 50% de todo o estoque de ações, o que a permitiria exercer controle decisório sobre “o ativo”, o que as colunas sociais noticiaram para o embaraço de seu pai e orgulho da mãe do Diego.

Porém, o mercado é feito de robôs que detectam quando algum ativo está despertando interesse e o compram também. Quase que por mistério, o controle sobre o Diego foi escorregando entre seus dedos, ao mesmo tempo em que o brasileiro se tornava um hit da internet. Sorte, em seu estado mais puro.

Isso é uma coisa que não ficou clara para os jornalistas da época. Não foi a Fer que puxou os 800% de subida das Raian Coins, mas um sem número de robôs, incapazes de avaliar se o Diego é um ativista disruptivo nas franjas do anarcocapitalismo ou simplesmente viaja. Eis aí mais um ponto em comum entre robôs e gente.

Mas pouco importa, com a subida vieram os interesses experientes, muitos dos quais dispostos a ajudar o Diego a dar certo para poder revender mais caro lá na frente.

O psiquiatra da Fê não conseguia controlá-la. A menina, conforme confessou, estava disposta a colocar tudo o que estive à disposição para ter o Diego, incluindo os treze milhões que seu pai tinha colocado em seu nome na XP.

A situação era de caos, como dizia a mãe para o seu psicanalista. Fato.

Assim foi por meses a fio. O Diego custava a acreditar no que estava acontecendo e, contrário a todos os conselhos especializados e aos apelos emocionados da sua mãe, se negava a vender um único token dos 20% que reteve. Fato.

Foi a sua mãe que o acordou no dia 07 de janeiro de 2020, com a notícia de que as Raian Coins haviam caído 60% de uma só vez. Seu coração palpitava, a respiração lhe faltava, as palavras não vinham.

A Fer por seu lado também foi acordada com a notícia, que lhe chegou por meio de uma ligação de um analista financeiro chamado Gary, que seu pai mantém em Nova Iorque. Nas palavras dele:

– O ativo que você busca caiu, mas eu não te recomendo que compre agora pois a tendência é de baixa continuada. Você deve esperar.

Difícil explicar a cabeça das pessoas. Ou, como diz o Diego, da vida saem os fatos, da cabeça, os paradoxos. Dessa vez, ela reagiu como se esperaria de alguém do clã Pimenta de Moraes e decidiu:

– Ok. Por favor, ajuste minha posição de compra e aja no momento ideal.

Dito e feito, ou melhor, nada feito. Passadas três semanas, novamente o Gary de Nova Iorque a acordou com uma ligação.

– Miss Fernanda, Raian Coins reagiram nesta madrugada. Estão 4% acima da média histórica das últimas duas semanas. O que podemos fazer?

– Vende tudo.

– Tudo?

– Sim, tudo. Algum senão?

– Não, pelo contrário. Já recomendei à senhora que se livre deste ativo. É só que eu achei…

– Esquece, Gary, esquece. O que me importa mesmo não pode mais ser meu. Esse tal Covid, com isolamento social e tudo mais…estragou o meu sonho.

– Sinto muito, senhora Fernanda. Vou processar sua ordem imediatamente.

A já frágil bolsa de criptomoedas foi inundada de ordens de venda e, como é o caso em situações extremas como esta, excluiu as Raian Coins antes que tocassem o zero absoluto. Em suma, deu ruim. Coisas da sorte.

Ex-milionário da noite para o dia, com a autoestima arrasada e ainda sem sua antiga ferramenta de trabalho, o carro que ganharam da mãe, Diego não encontrou outra alternativa senão se cadastrar para o único emprego que lhe parecia adequado: entregador c/ bicicleta própria.

E foi desta forma que os dois se encontraram, numa noite fria do outono paulistano, quando a Fer resolveu ir pegar pessoalmente no portão, a pizza que chegara tão rapidamente. Ansiava por algum contato humano e estava disposta a pagar por isso.

– Muito obrigada. Você foi muito rápido. Isso aqui é para você.

– Obrigado, senhora…?

– Fernanda.

– Ah, Fernanda. Obrigado. Ótimo jantar.

– Para você também. Quer dizer, agradeço você também. Uma boa noite.

E fechou o portãozinho ao lado da guarita, com um rangido abafado pela espuma do capacete.

O coração do Diego estava disparado. Era ela. Sim, a admiradora que conhecera pelas reportagens da internet. A sua promessa de uma vida melhor, que fechara a porta, sem que ele pudesse se apresentar. Fato, sorte, paradoxo. Assim é o Diego, assim é a vida.

 

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Em parceria com Thomas Machado Monteiro.

 

 

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Crônicas de uma era: o último abraço http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/04/14/cronicas-de-uma-era-o-ultimo-abraco/ http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/04/14/cronicas-de-uma-era-o-ultimo-abraco/#respond Tue, 14 Apr 2020 20:09:39 +0000 http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/?p=403 O simpósio sobre problemas globais começou animado, após o fiasco do ano anterior. Quem primeiro subiu ao palco da sede virtual da Organização foi Eva, holograma capaz de se materializar na sala dos milhares de expectadores e ali oferecer seu discurso de boas-vindas na língua local. Depois entrou a diretora-geral, Alexandra Muraffo, que saudou os membros do painel digital e fez um rápido histórico dos desafios recentes da área saúde, começando pela pandemia de Covid-19, divisor de águas de vinte anos atrás.

– Estudos dos anos 20 apontavam que a população humana iria crescer até a virada do século; hoje, somos obrigados a lidar com projeções distintas, baseadas em taxas de fertilidade aceleradamente decrescentes, em mais de metade do planeta. É nossa obrigação apontar caminhos para que possamos sair desta situação. Com objetivo de mostrar os mais recentes avanços nesta direção, agora falará o superintendente para assuntos ligados à reprodução humana, o professor emérito da Faculdade de Medicina de Harvard, Dr. Paul Bassen.

– Saudações a todos. Como muitos de vocês sabem, o programa de reprodução molecular extrauterina rápida (FMRP) foi desenvolvido para reverter a queda nas taxas de reprodução nos países em que ela foi mais acentuada, durante a segunda metade dos 30. Foram quatro anos de tentativas, até que em 2039 tivemos que encerrar o programa, em função da baixa adesão e de ataques recebidos, muitos deles sem fundamento algum.

Só no Japão doze aparelhos de FMRP foram vandalizados por casais que declararam interesse em levá-lo para casa e assim acompanhar o processo de formação embrionária. Vejam, estes são casais que nos procuraram com a intenção de ter um filho, a despeito da falta de desejo de se relacionar sexualmente um com o outro, e que, na hora do vamos ver, destruíram o nosso equipamento, eliminando as células germinativas e, por vezes, embriões já sintetizados. O mesmo padrão foi observado em diversos países da Europa e nas Américas.

Ao longo do último ano, fizemos um grande esforço para compreender as raízes do insucesso do FMRP e a forma de pensar da Geração C, com são conhecidos os jovens nascidos na década de 20 e que, mais do que nunca, precisamos sensibilizar.

Isto trouxe frutos positivos e é com grande satisfação que apresento o Programa de Otimização da Fecundação Humana (HRRP). Seu princípio é simples: oferecer gratuitamente uma terapia molecular com zero risco mutagênico, capaz de assegurar até 98% de chance de fecundação em qualquer relação heterossexual não protegida, entre parceiros que não sejam portadores de disfunções reprodutivas e que tenham menos de 45 anos.

A terapêutica turbina dramaticamente os gametas, ao mesmo tempo em que reduz os abortos espontâneos e outros eventos adversos. Trata-se de uma mudança de paradigma importante; ao invés de colocarmos ênfase na assistência aos casais que não querem fazer sexo, depositaremos esforços na fertilidade daqueles que o desejam.

O sinal piscando embaixo do display do orador indica que alguém do painel digital está pedindo a palavra – não uma pessoa da audiência, em algum canto do planeta, mas alguém que a organização chamou para participar. Mesmo em casos como este, as solicitações de fala costumam ser ignoradas, dado o tempo rigorosamente contado que cada um tem. Mas, desta vez, foi diferente e o Dr. Bassen abriu o microfone para quem o solicitava.

– Não vai funcionar. Nada disso vai funcionar. Vocês não percebem?

– Por que não vai funcionar, senhorita…?

– Prof. Dra. Luiza Chavez, presidente da associação interamericana de bem-estar. A voz fina, levemente trêmula, entregava algo que não cabia em seus títulos.

Não vai funcionar porque o diagnóstico está errado. Bebês não estão nascendo porque as pessoas não querem. Não é uma questão de ser mais fácil ou mais difícil engravidar. O problema é que a intimidade está muito em baixa; o sexo, ou a fertilidade, se é que estão mesmo em baixa, são meras consequências.

– O que te leva a pensar isso?

– Não sei…parece que desaprendemos a estar juntos de verdade.

– E como isso aconteceu?

– Aconteceu no abandono do abraço.

– Abraço??

– Sim. O abraço é o verdadeiro teste do sofá. É ele que determina se alguma coisa de verdade pode rolar. O abraço cria uma espécie de casulo de gestos, onde as pessoas que se gostam aprisionam o ar para respirarem juntas. É disso que nasce a intimidade. Depois que abolimos o abraço, os encontros entraram em parafuso. Quase ninguém passa do primeiro e, quando isso acontece, formam-se mais duplas do que casais.

– Acho que você está se confundindo, doutora. Este é o papel do beijo. Eu não sei se você sabe, mas fizemos amplos estudos sobre o beijo e concluímos que, no fundo, não faz muita diferença para a taxa de reprodução na nossa espécie.

– Olha, eu não conheço esses estudos, mas acho que o ponto do beijo é outro. Existe um tipo de beijo que serve para dizer coisas, uma espécie de contrato social. Pessoas se beijando comunicam que estão juntas, como sócias mesmas, especialmente se o beijo é selinho. Outro tipo de beijo é como sexo portátil; esta é sua sintonia.

Já o abraço se manifesta na sintonia da intimidade, não serve de contrato e nem funciona como transa – desculpe a expressão – em miniatura. Por outro lado, o desejo de ter filhos com alguém nasce em seu casulo, a partir da inspiração do ar compartilhado.

– Humm, interessante. Sabe dizer por que os abraços entraram em decadência?

– Suspeito que isso começou há décadas, com os aplicativos de relacionamento, que nos permitem escolher pessoas como quem escolhe produtos. A sensação de abundância faz com que as dispensemos de maneira análoga, assim que deixam de atender às nossas aspirações. Na turma da minha filha, todo mundo dispensa e é dispensado o tempo inteiro. Essa velocidade não está no tempo do abraço, que precisa refazer seu casulo inúmeras vezes até que de seus gestos saia uma mariposa.

– Quer dizer que não foram as nossas campanhas que mataram o abraço? Sabia que não éramos culpados por pelo menos alguma coisa! Hehehe.

– Não. Seu declínio é de fato anterior e tem origem na tecnologia digital, que fascinava nossos antepassados com aquilo que os economistas chamaram de redução friccional. Mas, é claro, aí vieram as epidemias da década de 20, os robôs de companhia e, batata, a gente perdeu o rumo.

– Batata?

– Esquece. Isso é uma expressão local, que o sistema de tradução não captou.

– Ah, ok. E o que você sugere que façamos?

– Eu não iria comentar, mas, já que você perguntou, aqui na nossa entidade organizamos um programa para fomentar o abraço. A premissa é que este hábito seja restituído ao repertório humano, desde a mais tenra idade; por isso, ele começa com a instituição do abraço no repertório das crianças, a partir do maternal II.

– Mas como isso seria feito?

– De duas maneiras: através de cursos de formação de professores e cláusula curricular. Para os cursos, nós concebemos uma espécie de holograma do abraço. É um coala gigante, que ensina os professores a abraçar.

– Ensina a abraçar?

– É. Porque as pessoas desaprenderam o abraço.

– Hummm.

– E para as escolas, a ideia é que os professores formados nos nossos cursos digitais sirvam de facilitadores e ensinem às crianças como se abraçar. Essa seria a primeira aula do dia, todos os dias.

– Mas, uma dúvida, maternal não tem currículo obrigatório – não que eu saiba.

– Sim, o programa é ambicioso e se propõe a alterar isso. Depois, nas idades subsequentes, a mesma coisa deve ser replicada, até o fim do ensino médio. E assim teremos o abraço de volta em uma geração ou menos!

– Doutora, se entendo bem, você quer obrigar as crianças e adolescentes a se abraçar e acha que isso é que vai resolver nossos problemas de relacionamento?

– Não! Claro que não. Esta é uma fala extremamente capciosa. Nosso princípio é do nudge, da facilitação, que permite que os comportamentos represados ganhem tração. Nada além disso.

– Mas você não acha que pode ter algo de artificial nesses abraços…induzidos?

– De maneira alguma. Artificial é esse negócio de mexer na biologia das pessoas para conseguir aquilo que a natureza sozinha não permite. Isso sim é artificial.

– Eu tendo a discordar. Veja, nosso programa de turbinagem da fecundação – e mesmo o FMRP – não mexe com o livre-arbítrio das pessoas, não se propõe a inserir comportamentos onde eles não existem. Apenas oferece as ferramentas certas para quem as quer utilizar.

– Bom, meu conceito de ferramenta certa é outro. Não consigo conceber tratamento de gente saudável como ferramenta certa. Aliás, sem querer ofender, mas, note, em poucos anos estaremos comemorando os cem anos do fim da segunda grande guerra. Esse tipo de coisa me lembra os experimentos brutais do período.

– Que insulto! Ainda mais vindo de quem quer fazer experimentos comportamentais que lembram as lavagens cerebrais da guerra da Coréia, do estado soviético, da prisão de Guantanamo.

– De onde você tirou isso? Sou eu quem quer fazer experimento biológico por acaso?

– O que você quer é pior.

E assim prosseguiu o debate, animado, até o esgotamento do tempo, para a sorte dos bebês que ainda não haviam se comprometido a nascer.

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Crônicas de uma era: o rei do papel higiênico http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/03/31/cronicas-de-uma-era-o-rei-do-papel-higienico/ http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/03/31/cronicas-de-uma-era-o-rei-do-papel-higienico/#respond Tue, 31 Mar 2020 07:00:36 +0000 http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/?p=395

Erik Mclean/ Unsplash

Quarta-feira de sol no pátio vermelho do predinho. Formigas passam carregando os destroços de um acidente verde como se um temporal se aproximasse. Não fosse a distância, daria para ouvi-las suspirando esbaforidas, pensou o Gino, da janela do 1B.

O que será que as pessoas estariam fazendo esta hora, se o tal vírus não existisse? Estariam que nem essas formigas, sem jamais perceber que se um gigante as observasse da janela, riria de tanta seriedade esbaforida – e também das cinzas sopradas contra o vento, entrando-lhe pela boca. Ah, esses gigantes…

A fragilidade é chave para a sobrevivência neste planeta. É dela que saem as notas do violão de transa, o xadrez humano de construção ou a prosa universal dos papas de Fernando Meirelles. Pouca coisa boa sai à ferro e fogo.

Quem sabe 1% do mundo entende de uma vez isso. Pode ser o caminho para melhorar um pouco o astral do planeta – claro, depois que devolvermos as focinheiras para os cachorros e pudermos nos beijar. Abaixou um pouquinho e beijou Olavo, sheepdog de farta pelagem, parceiro inseparável das tardes filosóficas, com ou sem coronavírus.

Foi neste exíguo intervalo que aconteceu. O Gino até ouviu o barulho e viu a massa branca correr pelo canto dos olhos, mas isso não foi suficiente para que concatenasse tudo. Então, quando olhou para baixou e viu o vizinho naquele estado, engasgou na fumaça e tossiu por uns bons quinze segundos, antes de conseguir falar alguma coisa.

– Cláudio!!! Fala alguma coisa, Cláudio! Tudo legal aí?

– Ai! Aiaiai.

– Que porra é essa, Cláudio? Virou o Batman? Hahahaha.

– Ahhh, meu calcanhar, acho que torci o calcanhar.

– O que foi isso, querido? Podia ter se estrepado, ainda bem que foi só o calcanhar.

– Err, preciso voltar para casa. Abre pra mim, Gino. Desce aqui e abre para mim pois a porta do pátio só abre por dentro.

Fosse o outro o contexto, sem dúvida teria descido sem falar mais nada. Mas, em plena tarde filosófica, a cena do vizinho todo enrolado em papel higiênico despedaçado havia se tornado impagável e não podia ser desperdiçada sem mais nem menos.

– Calma, Cláudio! Quer que eu peça pro Jaime ir aí?

– Não, não. Só abre a porta do pátio para eu entrar. Preciso ir para casa. Isso é…sério!

O simulacro era mutuamente mal representado.

– Hummm, então, espera um pouco que eu já vou.

– Vem agora! Vem agora, seu mole…

– Oi?

– Gino, abre essa porta! Olha meu estado, garoto!

– Pois é, se eu abrir, sem mais nem menos, vou ter que conviver com o inexplicável desta situação para sempre – falou com um sorriso fino. Preciso que você me conte antes o que te fez aparecer aí embaixo. Ao lado do Olavo, parecia a reencarnação do Dick Vigarista.

– É complicado, Gino, é complicado.

– Você é quem sabe. Quiser, só dar uns berros aí, que logo alguém aparece.

– Pulei da janela porque fiquei muito puto.

– Hahahaha! Genial.

– Tudo começou na quarta-feira da semana retrasada, quando fui cortar o cabelo; eu bem notei que o clima estava ficando meio estranho, mas não dei muita bola.

A faxineira tinha vindo e feito comida. Como eu tinha muita coisa do trabalho, fiquei direto até a segunda, desligado dos acontecimentos. Quando finalmente saí de casa, vi que todo mundo que podia havia se preparado para o apocalipse, menos eu.

Não tinha luvas, não tinha máscara, comida, nada. Passei na farmácia e fui direto para o supermercado, na tentativa de garantir minha sobrevivência.

O povo estava enlouquecido. Peguei o que tinha e o quanto tinha. Voltei para casa e fui assistir tevê para desestressar. Estava passando uma reportagem sobre desabastecimento e o repórter estava bem em frente à seção de higiene de um supermercado, totalmente vazia.

Gelei imediatamente. Eu tinha esquecido de comprar papel higiênico! Dez latas de leite condensado, suco de tudo quanto é tipo, sabão de lavar louça, o que você me perguntar, eu trouxe, mas o papel higiênico, que planejei colocar por cima do resto, esse eu não comprei.

De manhã saí para comprar aí nesse express aqui do lado, mas não tinha. Aí eu não sei o que me deu. Entrei em todos os supermercados e farmácias da internet e saí comprando tudo.

– Tudo?

– Todo o papel higiênico que houvesse. Como é só clicar que a compra está feita, foi tudo muito rápido. Fiz a rapa.

– Mancada, Cláudio.

– Segunda começou a chegar. Não tinha armário que coubesse tanto papel higiênico. Resolvi colocar num dos quartos, que tá meio vazio. Encheu. Depois lotei a sala, meu quarto. Até debaixo da mesa eu pus fardo de papel higiênico. É isso.

– Como assim, é isso?

– Gino, imagina você gastar mais de seis paus em papel higiênico, nessa crise. Fazer um cálculo e ver que tem papel higiênico para quase dez anos.

– Mas por que você não doou para quem precisa?

– Não sei. Estava tão estressado, que nem pensei nisso. Enfim, a gota d´água mesmo aconteceu agora pouco, quando outra reportagem disse que não iria ter desabastecimento. Aí foi demais. Me enrolei nuns vinte rolos de papel e me atirei.

– Da janela do primeiro andar?

– É.

– Bom, menos mal, pelo menos o papel serviu para alguma coisa. Pera aí, que estou descendo. Depois te ajudo a se livrar desse fardo.

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Crônicas de uma era: a feira da Lorena II http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/03/17/cronicas-de-uma-era-a-feira-da-lorena-ii/ http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/2020/03/17/cronicas-de-uma-era-a-feira-da-lorena-ii/#respond Tue, 17 Mar 2020 07:00:10 +0000 http://visoesdofuturo.blogosfera.uol.com.br/?p=381

Céline Martin/ Pixabay

“Crônicas de uma Era” é uma série de crônicas e contos inspirados nas transformações psicossociais trazidas pela digitalização massiva, economia compartilhada e inteligência artificial. Hoje apresentamos a segunda parte de “A feira da Lorena”. Se você ainda não leu a parte inicial, faça-o. E volte aqui para a continuação.

 

Passados dois meses, a notícia de que uma cigana clarividente oferecia seus serviços na feira da Lorena ultrapassava as fronteiras do quadrilátero e começava a atrair a atenção de quem tem decisão difícil para tomar – ou problema insolúvel para resolver – na cidade inteira.

Dona Ruth aprendera a utilizar o “ponto” (como chamava o microfone sub-auricular por onde recebia informações sobre os clientes), enquanto seu filho Otávio dedicava-se obstinadamente ao aumento da velocidade das consultas e quantidade de bases de dados disponíveis, a despeito do número massivo já adquirido na dark web.

Engana-se quem pensa que o sucesso satisfaz independentemente de sua origem. Tanto pelo contrário, muitas vezes ele é como a medalha que consagra a vergonha do atleta anabolizado e outros tantos personagens semelhantes, com exceção dos políticos, imunizados pela hipótese de existirem transgressões capazes de salvar o país.

Esta era a parte do mal estar que vinham debatendo nos últimos dias. Em outro departamento, Dona Ruth processava uma aflição incompreensível para o filho: será que essas coisas que cabem em tabelas dão conta do serviço? Ou será que seu destino é reduzir o futuro a tediosos desdobramentos do passado?

A sorte veio te ver, são R$ 90 e você nunca mais vai se esquecer – falou Dona Ruth para o cara formal, com ares de Zeca Urubu.

– Que sorte?

– A sorte de saber o seu destino.

– Mas se é o destino, qual a vantagem de saber?

– Não existe destino, caro advogado, só possibilidades. É como resultado de exame, às vezes é quase uma sentença, mas mesmo nestes casos tudo pode mudar. Nunca se sabe quem será o próximo atropelado, não é verdade? Hehehe.

– Nada como uma pessimista convicta para animar o meu dia. Como a senhora sabe que sou advogado?

– Seu terno…sua pasta.

– Ah, certo. Só advogado usa pasta, né?

– Todo homem rico tem uma pasta marrom que combina com o terno, mas é preciso ser também advogado para levar o kit passear aos domingos.

– Encantado. Meu nome é Joel.

O meu é Carmem – disse ela, com um sorriso maroto, enquanto recebia a ficha corrida do homem, em velocidade lancinante.

Risos de ambos, olhando para a placa escrito “Ruth”.

– Carlos. Carlos Alberto de Oliveira.

– Querido, quer que eu leia a sua sorte?

– Eu não acredito nessas coisas.

– Não precisa acreditar. É só não ter medo. Para você, é dinheiro de pinga; digo, gorjeta.

E assim ela começou mais um atendimento.

Sócio do escritório Oliveira e Associados, muitos casos no JusBrasil, doutorado na USP, a ficha do homem dava para umas duas horas de conversa. Já a consulta, bom, esta seguia distante, com o cliente indiferente à suposta vidência da cigana e à narrativa de um futuro ainda mais resplandecente na profissão. Até que ela decidiu arriscar.

– Você conquistou muita coisa; fez fama e dinheiro, sempre querendo mais e mais; pois saiba que seu problema é esse. Tá vendo essa carta aqui? Esta é a torre, ela é uma das mais complexas do tarô, mas para você o sentido é um só: você deve se reestruturar. Por que você não relaxa e aproveita um pouco o que já conquistou?

– Eu não consigo, nem tenho tempo para isso. Você não percebe mesmo, né? Aliás, acho que já foi o bastante. Podemos encerrar por aqui. Meus parabéns, a senhora é realmente tão impressionante quanto dizem. Vou acertar e ir embora, ok?

Mãe, ele tem várias entradas no hospital Albert Einstein no último ano; acho que não está bem – disse Otávio.

– Eu sei que você tem pressa, a pressa de quem sofre, Carlos. Sofre por estar doente e, sobretudo, sofre pela sua família. Mas não se desespere. Você irá vencer, tudo o que você precisa é se reestruturar. É disso que estou falando.

O rosto do homem se iluminou como se jamais tivesse sido soturno: você acha?

– Saber mesmo eu não sei, ninguém sabe. Agora, eu sei que a sorte está a seu favor. É câncer, não é?

Sim. Um câncer pequenino que se espalhou por todos os lados – disse ele, com aquele tom quase infantil que alguns médicos adotam para dar notícia ruim.

Mãe, consegui acessar a ficha médica dele. Tudo que encontrei é ortopedia. Tá ouvindo? Ortopedia. Acho que ele quer te pregar uma peça.

Por que você está escondendo a doença da sua família – perguntou ela, ignorando completamente a dica do filho.

– Minha mulher tem uma depressão de anos. Um dos nossos filhos, o único que mora no Brasil, precisa muito de mim, deu para beber, não sai de casa.

Aí eu digo que estou tratando o joelho. Que, aliás, estou mesmo. Fiz uma baita cirurgia no começo do ano passado, mas nunca ficou bom – disse sorrindo.

Sem falar mais nada, Dona Ruth coloca a mão sobre a cabeça de Carlos e reza algo que ele não consegue decifrar.

– Meu filho, eu não tenho o poder de te curar, mas posso dizer o que você precisa fazer: vai para casa, junta a sua família e conta a verdade. Você passou a vida tentando ser o esteio de todo mundo, mas agora quem mais precisa de esteio é você. Vai com tudo, sem se preocupar com a fraqueza de ninguém. Depois, pega essa grana que você ganhou e aplica no melhor tratamento do mundo. Tem um ditado que diz que Deus gosta de ajudar quem leva a saúde a sério. Acredite nele. E vá em paz.

Uma lágrima escorria do rosto iluminado de Carlos, tal como se ainda fosse o coroinha de São Luiz do Paraitinga, que se divertia dando vozes às estátuas da igreja.

Obrigado, muito obrigado – disse, enquanto saía a passos largos, esquecendo-se de pagar.

Este dia Dona Ruth foi mais cedo para casa. Equipamento na mão, agradeceu demais ao filho pela parceria no projeto mirabolante e sugeriu que tentasse arrumar um emprego. O tempo da tecnologia como muleta e simulacro havia ficado para trás.

 

Perdeu a primeira parte da história? Leia aqui:

Crônicas de uma era: a feira da Lorena

 

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