PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Três ideias originais sobre tecnologia para a sua semana

Álvaro Machado Dias

12/07/2020 04h00

Escrevo com o objetivo de cobrir temas da área de tecnologia – no fundo, (neuro)ciência e tecnologia – que tenham interesse filosófico ou social mais amplo. Em geral, desenvolvo séries de quatro ensaios, as quais me tomam dois meses, além de mais um, em que reviso o campo. Esta dinâmica me dá muita satisfação e, arrisco dizer, vai ao encontro das aspirações de um perfil de leitor de textos mais longos e conectados entre si, que o UOL vem amealhando cada vez mais.

O comprometimento com as séries temáticas –bases cognitivas da inteligência artificial, o papel da tecnologia na arte contemporânea, o futuro das tecnologias médicas, a ideologia da 4a. revolução industrial, crônicas da pandemia e outras – muitas vezes me deixa com aquela sensação de quem não foi à festa porque preferiu ficar focado até tarde. É o famoso FOMO (feeling of missing out), que surge no palco da consciência a cada insight que vejo nascer –e deixo morrer — em prol da manutenção de uma linha sistemática de produção.

Porém hoje vou fazer diferente. Vou compartilhar com vocês três ideias que tive sobre tecnologia, nestes últimos dias. O critério de seleção é simples: cada uma me parece merecedora de um artigo só seu, explicando como tudo o que está em jogo de fato funciona. Quem sabe um dia…

Tubarões arrazoados

A coisa mais importante que está rolando na área de tecnologia no país neste momento é a liberação de pagamentos pelo WhatsApp. Ao passo que desagrada aos bancos que não atendem por BB, Sicredi ou Nubank, o sistema é magnificamente confortável para o consumidor final, que pode se livrar de um hardware que demanda manutenção constante (o plástico do cartão, sempre sujeito a perdas e danos), além de poder mandar dinheiro para os outros, sem as variadas limitações dos TEDs e DOCs. Neste sentido, a ideia é tão atraente quanto a de abolir a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança.

Vejam, a maior parte dos trajetos que fazemos são curtos e apresentam baixíssimo risco. Por que raios usar cinto de segurança, não é? Esta é a sensação que todos temos quando o sensor apita, no estacionamento do shopping. Acontece que a obrigatoriedade do uso do cinto não está lá porque o mesmo seja essencial nestas horas, mas porque é preciso que exista um condicionamento para que a maioria das pessoas o utilize em todas as outras ocasiões. O que salva vidas.

Pagamentos por WhatsApp tendem a ter MDR (merchant discout rate – a taxa cobrada do vendedor) mais alto do que as maquinhas (até 100% maior). É claro que têm horas em que vale a pena pagar uma merreca a mais pelo conforto. Acontece que a liberação do mesmo tenderá a funcionar como a abolição da obrigatoriedade do cinto de segurança: as pessoas vão simplesmente se esquecer deste detalhe.

A principal consequência será que os vendedores terão que subir o preço de seus produtos para acomodar o lucro do Facebook e parceiros na operação (sendo que o Facebook vem sendo ampla e justamente considerado uma das empresas mais nefastas do mundo atual), dando desconto para quem decidir pagar de outra forma.

Este modelo de pagamento por app não é novidade no mundo. Tanto pelo contrário, o WhatsApp está tentando correr atrás do WeChat, expoente do modelo super-app, conforme expliquei neste artigo, sobre arranjos de pagamento e blockchain.

Na China, o super-app – aplicação que serve para finalidades sociais, comerciais e de telecom – gerou um ecossistema próprio, em que a digitalização financeira é a base. Esta por sua vez mudou a mentalidade dos chineses em relação à importância da bancarização digital, assim como jogou fortemente contra o uso do papel moeda no país.

Essa é a parte óbvia, a qual nos serve de pano de fundo. A não óbvia é a seguinte: este arranjo foi crítico para a implantação do primeiro grande projeto de moeda digital nacional (CBDC). Somando-se a bancarização do WhatsApp com o Pix, sistema de pagamentos do BC, que promete transações imediatas, 24/7, a partir de novembro, chegaremos a um cenário ideal para a digitalização do Real.

À semelhança do pagamento por WhatsApp e desobrigação do uso do cinto de segurança, CBDCs trazem vantagens imediatamente perceptíveis para boa parte da população. Porém, tornam a vida de quem está excluído do universo digital (classe D, idosos e outros) muito mais difícil, aumentando a desigualdade. Em paralelo, criam oportunidades para perseguições econômicas e concorrência desleal no sistema financeiro.

O sucesso do projeto do WhatsApp deverá reduzir o incentivo para a população brasileira utilizar papel-moeda, bem como forçar a bancarização digital das classes C e D. Se de fato o Pix sair, estarão criadas as condições para a implementação do Real digital – ou, como faria mais sentido em outro contexto político – de uma moeda digital do Mercosul.

Um olé tupiniquim no FBI

Em 12 de março, o UOL publicou o artigo intitulado "Como a Lava Jato escondeu do governo federal visita do FBI e procuradores americanos", em parceria com a Agência Pública e o The Intercept Brasil. Ali, narrava-se o fato de que, em 10/2015, a força-tarefa da Lava Java do Paraná havia recebido a visita de uma delegação composta por procuradores americanos e membros do FBI, entre outros, a qual não seguiu os ritos tradicionais para este tipo de relação, a saber, um pedido formal de colaboração (MLAT), que deve estar centralizado no Ministério da Justiça brasileiro.

Em 1/07/2020, a Agência Pública e o The Intercept Brasil publicaram o artigo "O FBI e a Lava-Jato" que, entre outras coisas, lançou luz sobre a colaboração brasileira com o FBI para quebrar a criptografia do sistema My Web Day, do famoso setor de operações estruturadas da Odebrecht, que usava a metodologia True Crypt para proteger os dados.

Segundo a Agência Pública:

Procurada pela reportagem, a Lava Jato afirmou, através de nota, que "os dados do sistema Drousys, entregues ao MPF no bojo do acordo de leniência firmado pelo Grupo Odebrecht, já foram objeto de perícia submetida à avaliação do Poder Judiciário brasileiro e auxiliaram no fornecimento de provas a diversas investigações e acusações criminais". A resposta completa está no final da reportagem. Porém, apenas em agosto de 2017 cinco discos rígidos com cópia de dados do software My Web Day foram entregues oficialmente aos procuradores da Lava Jato como parte do acordo, segundo reportagem de O Globo. Os arquivos para descriptografá-los continuavam desaparecidos – e mais uma vez a Lava Jato precisou da ajuda dos americanos.

 O texto não diz que o FBI tenha acessado os arquivos, mas é isso o que muita gente entendeu por conta própria. Em consonância com esta possibilidade, uma pesquisa sobre o tema aponta que (1) o TrueCrypt, que é Open Source, foi descontinuado em 2014; (2) os próprios desenvolvedores aconselharam seus usuários a deixar de utilizá-lo; (3) algumas vulnerabilidades estavam descritas na internet já em 2015; (4) O site do TrueCrypt apresentava a seguinte mensagem, à época:

"The development of TrueCrypt was ended in 5/2014 after Microsoft terminated support of Windows XP. Windows 8/7/Vista and later offer integrated support for encrypted disks and virtual disk images. Such integrated systems are also available on other platforms (click here for more information). You should migrate any data encrypted by TrueCrypt to encrypted disks or virtual disk images supported on your platform,"

(5) Pierluigi Paganini, conhecido hacker e especialista em segurança, disse: "The popular security expert James Forshaw has discovered two critical flaws in the driver that TrueCrypt installs on Windows systems".

(6) Em 2014, o FBI acessou a participação criptografada de Christopher Glenn, que havia copiado planos militares americanos e os protegido usando TrueCrypt. Pegou dez anos de cadeia por isso. Foi na sequência deste evento que o TrueCrypt foi descontinuado. Será que o encerramento repentino ocorreu porque o FBI teve acesso ao algoritmo criptográfico, tornando-o vulnerável deste momento em diante? É o que muitos se perguntam até hoje.

Desta vez, o pano de fundo tem clima de série: a tal ajuda dos americanos deu certo, o FBI acessou os arquivos da Odebrecht na marra, mas isso nunca foi revelado. Certo? Humm, na minha opinião, errado.

Vou deixar a parte retórica de lado e focar dois pontos simples. O primeiro é prático. Meia década antes do evento Odebrecht, o FBI passou um ano tentando quebrar a criptografia dos discos rígidos do computador de Daniel Dantas, no contexto da Operação Satiagraha, sem sucesso. Entenda a operação, incluindo parte das muitas coisas que deram errado na mesma.

Em 2012, o FBI tentou quebrar a criptografia de arquivos relacionados aos famosos Panamá Papers e também deu com os burros n'água. Vale notar que, neste caso, o algoritmo não era o TrueCrypt, mas seu sucessor, conhecido como Vera Crypt; porém, eles são bastante parecidos. Já no ano seguinte, foi a vez de David Miranda ter  arquivos sensíveis, protegidos com TrueCrypt, inspecionados pelo FBI. O resultado? Sem B.O.

Mas, afinal, e o caso Christopher Glenn? Durante o julgamento ele se declarou culpado; é bem possível – provável, arrisco dizer – que tenha dado acesso aos discos, enquanto negociava sua sentença.

O segundo ponto é técnico. O True Crypt utiliza um padrão criptográfico conhecido como AES 256 bits, que é tão resistente que nem os computadores quânticos do futuro poderão quebrá-lo. Aliás, quando você ler que os computadores quânticos vão ser capazes de quebrar toda a criptografia existente, etc., ignore. É bobagem. Na realidade, existem dois tipos básicos de criptografia: assimétrica e simétrica. Esta última não está sob qualquer ameaça, apesar de ser mais simples, em certo sentido.

Tudo isso leva a crer que a capacidade de quebrar na marra as senhas criadas com ferramentas Open Source, como o True Crypt/Vera Crypt, as quais estão disponíveis para qualquer um, está acima da capacidade do FBI, NSA e de qualquer outro que queira se aventurar por este terreno. Isto decorre da inexistência de qualquer método  "cripto-analítico" páreo para o AES 256, o que de fato é surpreendente, dado que o mesmo é quase tão velho quanto a World Wide Web (1997 vs. 1989). O que existem são métodos para se tentar chegar às chaves armazenadas na memória da própria máquina e para se explorar outras tantas vulnerabilidades e deslizes.

Ingenuidade minha, que desconheço os laboratórios ultra-high-tech da inteligência americana? Então que se prove o contrário, começando pelos arquivos de Dantas!

Reflexões sobre a universalização de Jesus (por: ateu bem-intencionado)

O Black Lives Matter movimentou o novo normal como se este fosse aquele de antigamente: gente na rua, gritos de guerra e muita, muita gente presa. Os resultados estão pipocando por todos os lados. Uma parte é diretamente relacionada à atuação da polícia, assunto sobre o qual escrevi aqui. Outra é bem mais genérica e inclui, entre outras frentes, a derrubada de estátuas de gente que contribuiu para o Apartheid-soft (e hard) que chega aos dias atuais.

Nesta linha, parece chegada a hora de enfrentar uma questão fundamental: o Jesus loiro que as famílias de todas as cores fixam na parede – um homem branco de Oxford, como bem definiu o comediante inglês Eddie Izzard.

Antes que alguém assuma que se trata de um mecanismo moderno de dominação, lembremos que o Jesus de Oxford é uma releitura renascentista (vide "A última ceia" de Leonardo da Vinci) de pinturas e outras formas de representação que já tinham lhe embranquecido um tanto. Também é verdade que diferentes perfis de Jesus se tornaram canônicos ao longo da história, em diferentes partes do mundo. Vale a pena acessar este artigo da National Geographic e conhecer as principais versões. Algumas são muito interessantes.

Feitas estas ressalvas, é de se considerar que o Jesus de Oxford, associado a uma representação eurocêntrica de Deus, teve papel importante na colonização africana; aliás, até hoje, imagens do tipo seguem espalhadas pelo continente, como destaca Willem Oliver, da Universidade da África do Sul. Seja lá, aqui ou na Ásia, parece-me claro que o mundo só tem a ganhar revisitando esta questão. Vejamos, a premissa subjacente à representação religiosa de Jesus é de que personifique pureza de espírito, bondade e retidão, de modo que, a partir da identificação projetiva, catalise sentimentos de confiança, solidariedade e compaixão.

12Uma das consequências da eficácia da primeira associação é a maior confiança intrínseca em homens de pele e olhos claros. Este efeito foi confirmado na última pesquisa conduzida pelo Instituto Locomotiva, que mapeou percepções implícitas e explícitas sobre cor e outros atributos, numa grande amostra nacional – e o que vale para o Brasil, onde os brancos de olhos claros são minoria, vale para a maior parte do mundo.

A maneira mais simples e direta de abordar a questão é por meio da antropologia forense, capaz recriar a provável imagem do Jesus verdadeiro (assumindo que tenha existido, assunto que aqui não está em discussão). Não se trata de tarefa fácil, uma vez que não há vestígios do corpo, esqueleto ou DNA. Porém, como Mike Filley gosta de lembrar: "de acordo com o evangelho de Mateus, quando Jesus foi preso no jardim de Getsemani, antes da sua crucificação, Judas Iscariotes teve que indicar para os soldados quem era Jesus, uma vez que eles não conseguiam diferenciá-lo de seus discípulos".

Com base na premissa de que sua aparência era comum, um projeto de antropologia forense e arte, recriou o perfil do filho de Deus, em 2015. O resultado pode ser encontrado aqui. Pensar neste perfil à luz dos protestos anti-racistas atuais conduz à máxima de que a "imagem pública de Jesus" precisa ser completamente redefinida. O impacto desta revisão não pode ser subestimado. Ao que tudo indica, Jesus não era branco e, como tantos outros, acabou assassinado por sua oposição aos poderosos.

Este é o pano de fundo, o básico. Para além dele, a questão que se coloca é que a relação que os cristãos estabelecem com Jesus vai muito além da iconografia. Reduzir esta discussão, que no meu entendimento é absolutamente importante, ao naturalismo da reconstrução forense é matar a chance de algo muito mais interessante, imaginativo e rico de sentidos – essa é a reflexão que gostaria de compartilhar.

No meu entendimento, o melhor caminho para a redefinição da imagem de Jesus não se reduz à antropologia forense, mas passa pelo uso de técnicas combinatórias de imagens, baseadas em inteligência artificial, para fundir todos os registros faciais masculinos do mundo (que pena que tenha que ser assim) em um só. Este sim seria a representação de Jesus: sempre mutável, evoluindo junto com a humanidade, irmanada em sua multiplicidade – afinal, este era o espírito da coisa, não é?

Para fazer isso seria necessário partir de um percalço: a combinação irrefletida de todos os registros disponíveis nos bancos de imagens privados (onde estão as imagens que podem ser compradas) levaria a vieses amostrais parecidos com estes que tornam os algoritmos preconceituosos. Em segundo lugar, estas imagens são inautênticas. Melhor seria começar um projeto global de novas coletas, o que poderia trazer outros tantos desafios de privacidade.

Finalmente, há o problema mais sério de que isso iria mais uma vez obliterar a representação das verdadeiras origens étnicas de Jesus, em prol de alguma coisa que, por definição, não existe. Para acomodar as ressalvas que este último traz, penso que o ideal seria ancorar (leia-se: atribuir grande peso amostral) à imagem recriada pelos antropólogos forenses em 2015. Preservado este ponto, seria importante incorporar imagens de pessoas de todos os povos do mundo, em taxas iguais, independentemente do seu tamanho ou do número total de imagens disponíveis. Muita gente iria torcer o nariz, mas, no mínimo, teríamos algo novo – e completamente desconectado do discurso empobrecedor do novo normal: o primeiro projeto religioso divertido do milênio.

Sobre o Autor

Álvaro Machado Dias é neurocientista cognitivo, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomadas de Decisão, editor associado da revista científica Frontiers in Neuroscience, membro da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge) e do MIT Tech Review Global Panel. Seus interesses intelectuais envolvem tomada de decisões de um ponto de vista cerebral, efeitos das novas tecnologias na compreensão do mundo, inteligência artificial, blockchain e o futuro da medicina. Contato: alvaromd@wemind.com.br

Sobre o Blog

Este blog trata de transformações de mentalidades, processos decisórios e formas de relacionamento humano, ditadas pela tecnologia. A ideia é discorrer sobre tendências que ainda não se popularizaram, mas que dão mostras de estarem neste caminho, com a intenção de revelar o que têm de mais esquisito, notável ou simplesmente interessante, de maneira acessível e contextualizada.